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Brasil em Desenvolvimento
O Trem da História Está Passando de Novo...
Nem merece mais ser usado o termo " trem da história" na referência àquelas oportunidades de salto para novas fases e construção de futuro que o Brasil tem perdido. É incrível que planejadores e desenvolvimentistas mais do que tarimbados como João Paulo Reis Velloso e Eliezer Batista tenham que enfatizar essa questão, como fizeram na excelente edição da revista Inteligência de setembro/2002. Eles já devem estar cansados de tudo isso, e talvez pasmos com a frivolidade com que é tratado o problema. A própria retórica de "trem"da história soa de certa forma como obsoleta hoje em dia, quando ainda sequer conhecemos o trem-bala - há muito substituto tecnológico daquele trem que se falava...
Vinte e cinco anos é a idade média de quem está terminando a faculdade e ingressando no mercado de trabalho, tendo dificuldades com a falta de novas oportunidades e com os baixos salários gerados por uma economia que tem um perfil médio de baixo valor agregado. Os novos profissionais não imaginam que tudo que ainda NÃO aconteceu já estava sendo planejado e discutido quando eles nasceram.
Ë incrível a dificuldade do sistema econômico brasileiro em reciclar-se e rapidamente colocar-se nos setores dinâmicos do comércio internacional.
A microeletrônica, quase 25 anos depois de sua explosão no Silicon Valley, ainda é um mistério e um sonho para nossos formuladores de desenvolvimento. Assistimos às explosões dos Estados Unidos, da Coréia do Sul, da Índia, da Irlanda, com um desgosto inconfesso. Mas por que persiste esse bloqueio, por que essa letargia?
Os setores dinâmicos da economia mundial há tempo já são bem conhecidos, são eles: microeletrônica, software, biotecnologia, desenvolvimento de novos materiais, telecomunicações, robótica e automação industrial. Nesses segmentos está centrada a competição internacional, e quem não tem uma posição de destaque nessa matriz não pode pleitear uma dinâmica econômica acelerada. É preciso entender o por que da letargia brasileira em buscar posição de destaque nesses segmentos, em atrair e lançar no sistema produtivo esses disseminadores de desenvolvimento real e palpável.
Para começo de conversa, essa era uma discussão que devíamos ter tido há cerca de 7 ou 8 anos, quando começamos a sair do breu do risco-tudo da época de Figueiredo, Sarney, Collor: risco-dívida, risco-político, instituições frágeis, inflação.
Melhor dizendo, falta de discussão talvez não seja o problema, por que essas sempre existiram, somos um país pródigo em retórica. A falta é de ações sérias e corajosas de atração de investimentos internacionais de qualidade, integrando as instituições de pesquisa e desenvolvimento ao fomento do capital privado e competitivo internacionalmente.
Uma razão para o berço esplêndido e há muito incômodo talvez seja o deslumbramento e o canto da sereia que trazem as complexas funções-meio que são criadas para viabilizar os projetos nacionais. Os formuladores de programas, projetos e institutos acabam tão apegados às suas organizações e à manutenção de suas organizações que esquecem da finalidade para que foram criadas. A estrada não é construída para chegar a algum lugar e sair de cena, mas sim para continuar existindo...como eterno caminho.
Por mais que exista e persista um déficit social abissal, não admitir uma evolução geométrica na qualidade do ambiente operativo brasileiro nos últimos 8, 9 anos, seria tão ingênuo quanto afirmar que este mesmo déficit social não influi em nossa lenga-lenga econômica. Ainda mais ingênuo e frívolo seria creditar ao déficit social a eterna desculpa para a falta de avanço econômico. Se essa verdade fosse absoluta, o que dizer do fenômeno da região de Bangalore, na Índia, a despeito de seus problemas sociais inomináveis?
A constatação básica é que o déficit jamais será vencido se continuarmos investindo em setores econômicos defasados recursos que deveriam estar vinculados ao presente, e não ao passado da economia. A melhoria das condições operativas não pode ser a única política e a única ação, ainda que louvável e urgente. Política positiva é urgente, sim, para criar condições de saltos de produtividade e ciclo virtuoso de meritocracia e conhecimento, determinantes da inclusão social real e objetiva.
Somente assim a geração que está ingressando no mercado de trabalho pode sonhar com empregos e empregos de qualidade, que só virão com um novo "salto para o futuro". Atrasado, talvez, mas quem sabe por isso ainda mais urgente.
Precisamos de estratégia, e para ontem.
Gustavo Grisa
Reprodução autorizada mediante consulta ao autor.
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