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Brasil em Desenvolvimento
Somos Todos um Pouco Severinos
Não vamos nos envaidecer com as declarações de que o Brasil será uma das próximas potências mundiais. Os mais experientes já ouvem essa cantilena há algumas décadas. Quando ditas por representantes estrangeiros, têm muito de gentileza para tão-somente para adocicar seus anfitriões, que passam a acreditar na inércia benigna de nosso berço esplêndido. Que por menos que façamos, ninguém segurará esse país...
Na realidade, a questão é muito mais compreendermos com simplicidade o que ainda precisamos fazer, e aplicarmos uma boa dose de coragem para que essa vaga aspiração torne-se uma realidade mais palpável a cada um dos brasileiros. Ao olharmos os processos de desenvolvimento e de mudança de patamar econômico-social de países no mundo, observamos três eixos que nos ajudam a entender quando e como estamos no caminho certo e quando passamos por momentos de perplexidade, perda de tempo e energia ou simplesmente letargia:
Instituições Fortes – nas firmeza das instituições está o grau de seriedade dos países. Instituições respeitadas e bem estruturadas formam lideranças que refletem os anseios e aspirações da sociedade, e não líderes personalistas. Os limites das instituições, a sua firmeza e universalidade são um traço dos países que mudam de cara por terem diversos líderes aptos e responsáveis e cidadãos pragmaticamente engajados. Foi assim com a Espanha, está sendo assim com o Chile redemocratizado. Na área econômica, os investidores atendem a quem demonstra continuidade, baixo personalismo e pragmatismo construído sobre princípios universais de democracia, liberdade e seriedade no atendimento aos princípios legais. Por isso entendo que o caminho da China para o desenvolvimento é muito mais longo do que imaginamos, bem mais longo que o brasileiro.
Internacionalização Crescente – é irreversível o caminho de entendimento dos rumos mais avançados do mundo e rápida integração a esse mundo real, moderno e em transformação, baseado em educação, democracia plena e conhecimento. Um país se desenvolve ao compreender também sua dimensão internacional, seu papel como referência econômica e cultural e, principalmente, aprender a transformar as oportunidades desse mundo em mudança em elementos concretos de transformação econômica que possam resultar em maior prosperidade pessoal como fruto do trabalho ou empreendedorismo, gerando independência, dignidade, iberdade de pensamento e ação a cada brasileiro. Quem se internacionaliza não se vende. Se posiciona. Portanto, toda e qualquer ação contra o conhecimento de línguas estrangeiras, atração de investimentos internacionais, convivência com culturas diversas e a organização e projeção da cultura e presença brasileira no mundo deve ser vista como um obscurantismo ranheta, ranço do patrimonialismo de paróquia dos que têm medo de abertura por temor de serem pouco competentes ou consistentes.
Proximidade e Representatividade – sem uma idéia madura de cidadania e a prevalência de um ´mainstream` democrático, pragmático economicamente e aberto à oxigenação, não existe processo virtuoso. Cada vez mais pessoas devem ter vez e voz ou ter uma relação de representação com quem tem vez e voz. Os mecanismos de democracia direta, de democratização da informação e livre opinião devem ser fortalecidos, sem comprometer a legitimidade das representações políticas. O distanciamento do interesse dos representantes políticos do mundo real das ruas é um túnel aberto para o retrocesso. A evolução e universalização da educação gera uma melhor compreensão do papel de cada cidadão no processo político, e do discernimento entre consistência e frivolidade, entre o que é possível e o que é simples demagogia. Um país que convive com as pragas abjetas do assistencialismo, nepotismo e populismo como modo predominante de política não tem condição de aspirar a um papel mais importante no mundo. Um país que tem uma estrutura de administração pública que vive para si mesma, isolada da realidade das ruas e da economia real, tampouco. Não vivemos em um pastiche de Corte, é bom abandonarmos a cultura dos pequenos privilégios e pouquíssima criação. A carga tributária absurda do Brasil hoje atende àqueles que trazem o ranço de viverem em torno de uma corte artificialmente rica, que se alimenta de um mundo de produção cada vez mais empobrecido.
A obsessão em ser uma verdadeira ´potência´por simples discurso é perigosa, por trazer junto um certo ranço de dirigismo, autoritarismo ou falso triunfalismo. O caminho de construção de uma nação mais próspera, aberta e pragmática com resultados efetivos a todos, sem milagres mas com progresso contínuo, é árduo e não admite muitos desvios. O mundo em nossa volta não dorme, por mais sonolentos, dispersos ou desanimados que estejamos.
Até prova em contrário, somos, com nossas omissões e silêncio, todos nós, quem lidera o atraso, quem por ele é cooptado ou quem a ele é apenas indiferente, um pouco severinos.
Gustavo Grisa
Reprodução autorizada mediante consulta ao autor.
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