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Reforma Agrária: Muito Barulho por Nada


A opinião pública brasileira evolui aos espasmos, e a maneira como estamos começando a enxergar a questão da reforma agrária era consenso nas mentes mais lúcidas já há alguns anos atrás. No entanto, era preciso esperar um pouco para que algumas constatações que eram vistas até então com intelorência, ranço e preconceito ficassem latentes:

1. É cada vez maior o número de especialistas que têm tido o desassombro de afirmar que a reforma agrária nos moldes em que é feita no Brasil, baseada em desapropriações e distribuição fundiária tem efeito bastante limitado em termos de desenvolvimento econômico e social.
2. A tensão social plantada nas cidades agrícolas não é justificada pela performance dos assentamentos ou pelo benefício econômico a essas mesmas cidades onde há assentamentos.
3. Os agricultores assentados não têm obtido um nível de vida superior ao que tinham quando eram arrendados, trabalhadores ou agregados.
4. O reconhecimento do valor da terra é exagerado, quando na verdade o valor está na produção e no conhecimento. As ineficiências de propriedades pouco produtivas e mal administradas já foram resolvidas pelo tempo e pela corrosão do valor das `commodities`nas últimas décadas. Os antigos “latifundiários”já tiveram a sua punição, seja por sua própria incompetência, sucessões mal-feitas e faltas de atualização. Portanto, até o sentido maniqueísta da reforma agrária em parte se perde.
5. Biotecnologia, mecanização e logística de distribuição são a chave para a geração de bons empregos nas regiões agrícolas. O que é feito nos assentamentos é uma repartição da pobreza, a repartição em micro-unidades ineficientes a um custo elevado.
6. Se os recursos dispendidos com a reforma agrária fossem direcionados à educação formal e profissional , crédito agrícola realista e fortalecimento de pólos regionais, a absorção e distribuição da renda no campo poderia acontecer de forma natural.
7. O Brasil perdeu tanto tempo em promover uma certa distribuição fundiária, que hoje ela não faz mais sentido. É bobagem agir por despeito ou atendimento de antigas bandeiras que perderam a sua validade. Os problemas no campo são três: promoção do padrão de vida das populações agrícolas a outro patamar, principalmente o das gerações futuras, contenção do êxodo rural(fortalecimento de pólos regionais) e ganhos de produtividade/valor agregado.

Distribuir pobreza e ineficiência não é útil, tampouco ornamental, uma vez que os sandinistas, zapatistas e até mesmo 'el comandante' Fidel são quase peças de museu. A insistência no modelo atual apenas pode agravar as distorções e aumentar a indústria das invasões. Barulho à parte, a questão é que tudo isso tem pouca utilidade econômica, e limitada efetividade social. Não forma perspectiva, não forma esperança. Do ódio e do maniqueísmo será muito difícil construir alguma coisa.

Tomara que a sociedade brasileira tenha maturidade para discutir esse antigo tabu. Não há dúvida que temos capacidade para fazer algo melhor do que aí está. Não há restrições ao debate e à construção em uma sociedade democrática, portanto está aí a chance para encontrarmos mais uma saída. Agora, quem critica o modelo atual tem a oportunidade e até mesmo certa obrigação moral de desenhar uma alternativa.

Está aí mais uma grande chance para o Brasil moderno jogar mais uma pá de cal sobre o Brasil antigo de cartas marcadas e ódios lancinantes.O ódio só é derrubado pela razão. E a razão manifesta-se por projetos sensatos, abrangentes e atuais.






Gustavo Grisa

Reprodução autorizada mediante consulta ao autor.

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