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Brasil e China: Muitas Dúvidas, Poucas Certezas


Essa semana o Brasil reconheceu a China como economia de mercado. Não é à toa que muitos países relutavam em fazê-lo, e que os chineses tinham essa admissão por nossa parte quase como obsessão: na prática, o que fizemos foi dizer que as condições de trabalho, sanidade, liberdades e regulamentação da economia chinesa estão nos mesmos conformes de países como o Brasil. Significa dizermos que teoricamente os chineses obedecem às leis de patentes, contratos e condições de trabalho condignas. Pragmatismo à parte, é uma boa vontade digna dos noivos das histórias de Nelson Rodrigues.

Por outro lado, fica a real oportunidade de negócio, e as possibilidades para o futuro. O que temos que tomar cuidado é o quanto oferecemos de facilidades presentes em nome de perspectivas futuras. Um dos exemplos mais emblemáticos é a liberação da importação de carne de frango da China. Sabe-se que as autoridades sanitárias do Ministério da Agricultura resistiram até o último minuto. Se o frango brasileiro é uma "espiga-de-milho com asas", o frango chinês é uma "farinha de peixe com asas". Pelo menos é o que se viu até agora.

É urgente estabelecermos uma frente da iniciativa privada para poder estudar o perde-ganha desse acordo, e seus potenciais desdobramentos. Decisões pouco debatidas sempre podem ser polêmicas. É óbvio que o Brasil teria que ter um programa para inserção e intercâmbio econômico com a China, mas não se esperava algo tão rápido, acompanhado de uma declaração cujo impacto no médio prazo talvez não saibamos acompanhar.

Intercâmbio tecnológico com um país famoso por sua capacidade de “clonagem” é algo no mínimo arrojado. Seria aconselhável que a China,antes de querer ser reconhecida como economia de mercado, agisse como economia de mercado. A validade do que se fez não está sendo questionada, demonstramos um raro senso de oportunidade e empreendedorismo. No entanto, deveria estar sendo chamado um debate aberto para que os atores do setor produtivo – empresários, representantes dos trabalhadores e planejadores de desenvolvimento- saibam para onde podemos ir, o que pode mudar estruturalmente em nossa economia, e como transformar o acordo em uma vantagem efetiva para o Brasil. Acima de tudo, temos que entender o papel que exercemos no jogo estratégico chinês, que , sabemos bem, é exercido com paciência. O Brasil pode muito bem ter sido o “coelho”da história. A estratégia do lado chinês deve estar, com certeza, muito bem traçada.

As certezas são poucas. As dúvidas persistem. Podemos ter encontrado um corredor permanente de exportações e ampliação de atuação empresarial para “1 bilhão de consumidores”, como foi exaustivamente repetido, mas também podemos ter reeditado um Tratado de Methuen, onde nós entramos com “commodities”e podemos receber produtos industrializados sob um regime de trabalho, tributação, sanidade, condições ambientais que desconhecemos. De qualquer forma, é algo sobre o que temos que conversar, conhecer, estudar, e muito. Se precisávamos de um estímulo extra para que isso acontecesse, aí está.

A máxima continua valendo : decifra-me ou te devoro.


Gustavo Grisa

Reprodução autorizada mediante consulta ao autor.

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