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Brasil em Desenvolvimento
O Permanente e o Transitório na Explosão do Agronegócio
Nos últimos 2 anos, o agronegócio tem rendido ao Brasil dividendos sem precedentes. Os mais entusiasmados chegam a chamar de Revolução Verde o que mesmo o mais cético analista aponta como um crescimento com base sólida e mudança substancial na matriz agrícola.
Por trás desse sucesso, a receptividade do mercado internacional pelas commodities agrícolas, o ganho de assertividade do Brasil em negociações na Organização Mundial do Comércio e em vendas internacionais, e a própria modernização administrativa e de política do Ministério da Agricultura, em curso a partir do governo de Fernando Henrique. Incentivos à mecanização da lavoura e uma certa maturidade na integração e formação de empresas agrícolas de porte, principalmente no Centro-Oeste, têm feito a diferença e ajudado a “segurar”nossa economia em um período de dinâmica mais do que reduzida.
No entanto, é necessário certo grau de lucidez ao se projetar essa Revolução Agrícola brasileira para o futuro. O mercado de commodities está mudando de direção, e a super produção mundial de grãos indica que o mercado estará mais apertado nos anos seguintes. Para que o avanço de padrão do nosso agronegócio adquira contornos definitivos e tenhamos a possibilidade de não apenas defender a posição conquistada no mercado mundial, mas também ampliá-la, seria bom prestar atenção a alguns pontos:
· Logística: Nossos portos continuam caros, as estradas defeituosas e o mapa de algumas cadeias produtivas fazem um zigue-zague pelo Brasil que não tem explicação. A competitividade não pode ser fruto de situações transitórias do mercado internacional.
· Formação de consórcios e marcas para exportação- A manutenção de mercados que foram abertos através de possibilidade de complementação depende de constância, qualidade e trabalho de marca para alguns produtos. Marcas brasileiras exclusivas para exportação devem atender a critérios internacionais de design e apelo ao consumidor.
· Facilidade para financiamento externo – Algumas empresas agrícolas poderiam ter a possibilidade de financiamentos externos, em tempos de juro baixo, ampliadas.
· Continuidade do financiamento para mecanização e pesquisa- Os programas de mecanização acertam no cravo e na ferradura: melhoram a produtividade e competitividade do produto final ao mesmo tempo em que incentivam uma indústria que projeta-se para a América Latina e outros mercados.
· Avanço das pesquisas biotecnológicas, talvez com vinculação direta de impostos agrícolas- Além das commodities tradicionais, no Brasil existem inúmeras opções de produtos que podem ser desenvolvidos a partir de adaptações tecnológicas. As pesquisas públicas e privadas poderiam receber fundo específico, a exemplo dos fundos para desenvolvimento tecnológico da Irlanda.
· Paz no campo: É totalmente anacrônico o estado de instabilidade no campo diante da necessidade de modernização da economia agrícola brasileira. Desvaloriza a terra, aumenta os custos. A rediscussão de uma política fundiária mais racional do que a simples repartição da pobreza deveria voltar à tona.
· Integração e reconversão A integração de regiões tradicionais e a reconversão buscando uma integração espacial com as indústrias e a logística para exportação urge em muitas das cadeias produtivas do sul do Brasil.
· Núcleo permanente para negociações internacionais: as expressivas vitórias do Brasil nas negociações internacionais não podem ficar apenas restritas e dependentes da atuação brilhante de alguns técnicos e negociadores. É necessário termos redes de informações mais amplas para integrar as discussões, oportunidades e embasamento para não sermos pegos de surpresa em nenhum momento. As barreiras não-tarifárias exigirão posicionamento cada vez mais complexo.
Não podemos agir, guardadas as proporções, como a Venezuela não fez por ocasião do boom do petróleo. A oportunidade externa serve para firmarmos uma posição permanente e subirmos de categoria. O agronegócio moderno pode ser um dos grandes diferenciais brasileiros para exercício de uma liderança efetiva na arena mundial nas próximas décadas. A prosperidade econômica dispensa a necessidade de retórica. Quanto mais fatos, mais realidade, menor a necessidade de alegorias e adereços.
Gustavo Grisa
Reprodução autorizada mediante consulta ao autor.
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