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Brasil em Desenvolvimento
A Agenda Econômica do Governo até 2006
Passados os primeiros 18 meses, já podemos arriscar um desenho do que seria o cenário provável que circula pelo comando estratégico do governo Lula: chegar a meados de 2006 com uma economia razoavelmente controlada, reforçar a credibilidade do governo para tentar atrair algum investimento e, principalmente, torcer para que não exista nenhum choque externo da economia mundial que impossibilite a reeleição do PT em 2006. A partir daí, de uma situação razoável em todos os indicadores, poderia-se iniciar uma verdadeira "blitzkrieg" eleitoral no período 2005/2006, abrindo as torneiras em uma campanha sem precedentes. Para isso, nada como uma gestão econômica responsável.
Câmbio: para suprir as necessidades de financiamento externo, precisamos continuar exportando. Portanto, o câmbio deverá manter-se em termos reais onde está hoje, sendo naturalmente corrigido pela inflação. Hoje o real já se encontra mais depreciado do que a média histórica, e é razoável que este elemento continue em termos reais onde está. No lado micro, seria interessante qualificarmos mais as exportações, deixando de depender apenas de ‘commodities’.
Crescimento Econômico: em um cenário internacional favorável, a economia brasileira cresce moderadamente (entre 2 e 4%) nos próximos 2 anos, dando um alento ao setor produtivo. Para isso, a taxa de juros deverá manter-se mais ou menos onde está, com algumas flutuações. Os programas setoriais dificilmente saem do chão, é mais fácil mexer com a torneira da macro-economia. Setores de alta tecnologia terão que esperar....
Marcos Regulatórios : não deverão mais ser mexidos, pois o Governo aprendeu, a duras penas, como se perde credibilidade e quais as conseqüências. O discurso do “choque de credibilidade” não é à toa. O amadorismo deve diminuir na relação entre o Estado e potenciais investidores. Sobriedade é a palavra de ordem.
Emprego e Salário: o desemprego estrutural continua avançando no Brasil, e a culpa não é do Governo Lula. Se Lula tem alguma culpa, é de ter cometido a baboseira de prometer milhões de empregos diante de um ambiente em que a proeza seria sabidamente impossível. Programas setoriais para Construção Civil poderiam aliviar a grande massa de trabalhadores disponíveis, por exemplo. Mas as altas taxas de desemprego chegaram para ficar, mesmo que estanquem com um crescimento econômico moderado. Sem acréscimos de produtividade, é difícil a massa salarial crescer, e este é um nó político difícil de desatar: o aperto da classe média, formadora de opinião, está chegando ao limite. Grandes greves, no entanto, não devem se suceder, uma vez que a CUT tem o controle da grande maioria dos sindicatos. A desvinculação do salário mínimo e um aumento generoso em 2006 seria uma carta na manga eleitoral de efeito sem precedentes, que não deve estar sendo descartada.
Inflação: a equipe econômica procura resistir como pode às pressões para aliviar as metas inflacionárias, o que sempre é uma temerosidade. Os mais lúcidos sabem que o descontrole inflacionário representaria um retrocesso com ônus eleitoral incalculável.
Programas Sociais: saúde, educação deverão continuar a ser garroteados ao extremo. Não são essas torneiras as que devem ser abertas. A confusão temática deve continuar, já que o núcleo central já detectou do que o que se faça ou deixe de fazer em algumas áreas não tem importância prática no curto prazo. It´s the economy, stupid!! Quem tanto já esperou, pode esperar um pouco mais.É Maquiavel levado quase à letra.
Reformas Estruturais: o Governo sabe que não pode continuar empurrando por muito tempo com a barriga alguma desoneração tributária e uma reforma mais profunda na Previdência, incluindo talvez mais privatização nos setores de infra-estrutura. Mas deverá esperar até o início de 2007, com um novo mandato, para tomar as medidas impopulares que não tomará até lá, incluindo mexer com a própria base. Passando pela oxigenação da equipe de Governo. Sem incorporar algumas doses extras de pragmatismo e profissionalismo fica difícil encarar mais quatro anos.
Este é um possível rascunho do mapa que está circulando nas mentes mais evoluídas do Governo Lula. Para isso , conta com trunfos nada desprezíveis: o aparelhamento político da máquina pública, um `'funding' no mínimo invejável, a dependência dos Governos estaduais e a timidez da oposição.
No caminho do sucesso, duas pedras em potencial: uma, um eventual choque externo na economia mundial, obrigando o Brasil a “puxar o cinto”. Daí as esperanças de investimento e crescimento estariam sepultadas e a pergunta-chave seria: o Governo faria os ajustes necessários, ou partiria para artificialismos procurando mascarar a crise, criando uma bomba-relógio no futuro? De qualquer forma, seria difícil manter o plano de poder nessas circunstâncias. É também incerta a capacidade da tripulação para navegar em mar revolto, o que provavelmente traria de roldão um aumento brutal do risco-país.
A outra pedra no caminho seriam os próprios demônios internos, os “diabinhos na garrafa” de Robert Louis Stevenson. A verve inadvertida na política externa, demagaogia exagerada em programas internos, garroteamento tributário, recaídas anti-democráticas e desarticulação no comando podem levar à exposição demasiada de fraquezas ou trapalhadas. Será possível conter os convidados trapalhões?
Sem essas duas pedras, que podem até aparecer juntas, o caminho da reeleição é plenamente factível. Ao companheiro mais radical que ainda grita palavras de ordem contra a burguesia, fora FMI e outros termos para lá de ultrapassados, o alto-comando poderia reservar a frase de Caetano Veloso em um festival há algumas décadas atrás: “Vocês não estão entendendo nada....”
Gustavo Grisa
Reprodução autorizada mediante consulta ao autor.
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