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Brasil em Desenvolvimento
É Possível Discutir Pobreza e Desigualdade sem Demagogia?
É incrível como essas duas palavras-chave provocam acirramento de ânimos e discussões mais emocionais do que racionais, ou práticas. A última edição da revista britânica “Economist” centra sobre esta questão, a conclusão que a abordagem engajada da década de 50/60, de fácil absorção pelas massas e análise óbvia, de que “a pobreza é construída a partir da riqueza de poucos” é uma balela, e os programas com este princípio têm falhado sistematicamente. A questão fundamental é repensar a formação da pobreza, e como quebrar o ciclo sem disparar o gatilho do populismo e a deterioração das condições econômicas, terminando, obviamente, no agravamento da pobreza, com resultante aumento das desigualdades.
É a velha retórica da vítima, que acaba por produzir mais vítimas. A volta do debate da questão da pobreza e exclusão à arena internacional é importante. E nisso, justiça seja feita, é importante destacar o mérito ao Presidente Lula por ter ajudado a colocar lenha na fogueira do debate internacional. Mas se por um lado foi oportuno ao trazer o assunto à tona, como líder falhou ao não apresentar qualquer abordagem nova ou consistente para a questão além da velha cantilena da posição de vítima e assistencialismo misturado a conceitos rasteiros de geopolítica.
Para começo de conversa, a divisão de riquezas no mundo não é estanque. Países crescem, outros crescem menos. Empresas tornam-se hegemônicas, outras perdem sua posição. O fato da economia de Serra Leoa crescer e a dos EUA estar em recessão não tem correlação nenhuma sob a síndrome de Robin Hood. Ou seja, toda a construção retórica antiga está equivocada.Mudanças na estrutura econômica e avanço em condições sistêmicas, sim, mudaram a característica de muitos países, inclusive o Brasil por determinados períodos. Programas de “distribuição de renda”, por sua vez, sempre beiraram algo mais próximo ao “compassionate conservatism” de Bush e ao inchamento do Estado do que uma política séria de desenvolvimento.
Outro conceito equivocado é de que “enquanto as classes mais pobres ficam mais pobres, os ricos ficam mais ricos”. Nas regiões economicamente depreciadas do mundo se vê a decadência sistemática da alta burguesia local e o desespero das classes de baixa renda. Por outro lado, onde vicejam “novos-ricos” espalhafatosos também se vê a melhoria das condições do trabalhador médio. É óbvio que os mais pobres sofrem primeiro e o seu sofrimento é mais escancarado. Mas o desenvolvimento e crescimento econômico inegavelmente traz benefícios a todos. O problema é que este desenvolvimento não é contínuo, ou homogêneo.Quem tem mais educação e recursos tem maiores condições de adaptação.
A grande questão é que o mundo está atento`a questão da pobreza e exclusão, mas não sabe como tratá-la. Tem dificuldade em livrar-se das armadilhas retóricas do século XX. Por isso as diferentes edições do Fórum Social Mundial, que em conceito é uma bela iniciativa, são tão vazias e repetitivas enquanto perdem a chance de trazer um debate construtivo e idéias novas.
Um entendimento mais amplo do processo de desenvolvimento, o uso de economias de rede, amadurecimento político e melhor aproveitamento de recursos parece ser um caminho mais sensato. Mas a evolução gradual é algo muito mais difícil de explicar às massas. Não é à toa que o ex-Presidente uruguaio Julio Sanguinetti classificou semana passada o populismo como o mal maior da política latino-americana e entrave definitivo ao nosso desenvolvimento. Sanguinetti poderia adicionar mais um: além do populismo, o lugar-comum.
O século XXI é diferente, sim, mas está difícil acordar para ele. A pobreza do debate sobre pobreza(sic) é sintomática. Seria bom nos atermos mais a exemplos e acompanhamento de ações inovadoras, no entendimento das economias de rede e das oportunidades da globalização, e deixar a poeira ideológica do lado de fora. Nada mais fora de moda do que fundamentalismos de qualquer espécie.
Gustavo Grisa
Reprodução autorizada mediante consulta ao autor.
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