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2004: O Ano dos Aniversários


Uma análise dos fatos que influenciaram o desenvolvimento do Brasil e do mundo nas últimas décadas passa pela coincidência de aniversários que temos agora no ano de 2004. Cada um desses fatos desencadeou uma mudança de rumo no processo de desenvolvimento. É a prova de que eventos políticos e o rumo das economias têm muita conexão. Os ciclos também caminham de certa forma juntos.

5 Anos (1999) :Privatizações de Telecomunicações no Brasil e Expulsão da Ford do Rio Grande do Sul. De um lado, a virtude. De outro, o vício.

A privatização multiplicou o número de linhas em serviço quase por 6, universalizou e democratizou o serviço. Uma linha telefônica que antes custava mais de 1.000 dólares hoje custa menos de R$ 20,00. Em vez das longas linhas de espera, a instalação é feita de um dia para outro. O Brasil já possui uma das mais altas penetrações de telefonia fixa e móvel dentre os países em desenvolvimento.É o melhor “case” que temos de que privatização pode ser bem feita e pode reverter em ganho para a população.

O lado do vício chega a ser uma anedota. Lembro que estava no Canadá apresentando um painel defendendo investimentos no Rio Grande do Sul quando houve o anúncio oficial de que o RS não queria a planta da Ford que acabou indo para a Bahia,. Nada mais surreal. Do Moscow Times ao Herald Tribune nem o mais empedernido bolchevique entendeu como alguém diz não a empregos e industrialização. Se recordar é viver, viver também é aprender.Espera-se.

10 anos (1994): O Plano Real mudou a vida dos brasileiros, sim. A maioria dos países latino-americanos já havia atingido a estabilidade de preços nos anos anteriores, mas a custo de recessão e grandes sacrifícios sociais. Não foi o caso do Brasil, que gradual mas habilmente mudou o patamar de estabilidade da nossa economia, que se mantém de certa forma até hoje. O cotidiano do brasileiro nunca mais foi o mesmo. Desta vez, mudou para muito melhor.

20 anos (1984): O movimento das Diretas Já marcou a vitória do centro democrático, mostrou o quanto da opinião pública e de expressão estava represada e sedimentou as bases para os próximos anos da democracia brasileira. O fim dos 20 anos de governos militares foi ali, em meio ainda aos reflexos da crise da dívida externa e inflação fora de controle. Os anos de turbulência que seguiram construíram o alicerce do que temos até hoje, com Fernando Henrique e Lula.

30 anos (1974): O 25 de Abril português, ou Revolução dos Cravos, enterrou a continuidade do regime atrasado, clerical e extremamente conservador de Salazar, que havia sido reformista na década de 30. Mais do que isso, após alguns anos de confusão típicas da reconstrução de um regime democrático, abriu a condição para que Portugal corresse atrás do prejuízo, instaurasse uma democracia sólida e iniciasse um processo de renascimento econômico a partir da década de 80. Indiretamente, influenciou para a queda de Franco na Espanha, que fez a transição mais rapidamente e disparou o acelerador do desenvolvimento a partir do regime de Felipe González.

40 anos (1964): A polêmica “revolução redentora”, como foi chamada na época, ou “ditadura assassina”, como apareceu nas publicações mais exaltadas da década de 70 foi emblemática do processo de deterioração das instituições políticas do País. O entendimento do processo é fundamental para aprendermos o preço que se paga pela perda das instituições democráticas, e o quanto é grande o apego ao poder de quem não tem compromisso ou não acredita na democracia. Por outro lado, o que aconteceu em nossa economia não foi muito diferente do que ocorreu na América Latina na época. O que crescemos na década de 70 em parte perdemos com a ressaca econômica da década de 80.

50 anos (1954): A crise política que culminou no suicídio de Getúlio Vargas já demonstrava a deterioração institucional que acabou desembocando em 1964. A força do mito do Estado sindical e paternalista sobreviveu até há pouco tempo no inconsciente coletivo brasileiro.

O que 2004 nos reservará no futuro? Esperamos que seja o início de uma preparação da Geração X para exercer o poder, uma geração mais pragmática, menos dada a ódios, ideologias e paixões e mais centrada em resultados. Uma geração que leva a pecha de não gostar de política.Talvez goste de política, e também goste de gestão.O que seria no mínimo saudável.

As rupturas não são desejáveis, nem bonitas. O fortalecimento das instituições permite a oxigenação natural do sistema sem maiores traumas. Espera-se que essa lição tenha sido aprendida. Por que desenvolvimento, emprego, salário no bolso dependem, e muito desses fenômenos da política.Se o processo político produz traumas e dramas pessoais, as derrapadas econômicas também. De forma mais sutil, porém até mais universal. Fora da velha e boa “governança” existem poucas alternativas viáveis.


Gustavo Grisa

Reprodução autorizada mediante consulta ao autor.

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