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O RS é a França do Brasil


(Reflexões sobre nossa não tão doce decadência)

Ao ler a brilhante matéria “A França dos Extremos- A arrogância da decadência”, escrita por Fernando Eichenberg na revista Primeira Leitura de outubro sobre a decadência econômica, cultural e social da França, resisti mas não pude fugir do paralelo com o lento e cruel processo de declínio econômico e de influência do Rio Grande do Sul nas últimas décadas, salvo esparsas exceções.Concluí que o Rio Grande do Sul está hoje para o Brasil como a França está para a Europa.

É doloroso, difícil, mas está escancarado nos rasgos de arrogância que às vezes temos e nossa baixa capacidade de autocrítica. Quando não se tem mais os meios econômicos para sustentar a altivez, ela passa a ser somente arrogante e ridícula.

Mas vamos olhar para a França: na raiz do agravamento das disparidades sociais e das poucas oportunidades econômicas está um conservadorismo econômico, com baixo nível de renovação de lideranças e uma fuga em encarar de frente as reformas do Estado e da previdência que outros países europeus já realizaram há anos. O corporativismo estrangula as tentativas de reforma. Produção e trabalho estão há tempos fora da pauta de discussão, o crescimento econômico está bem abaixo da média européia. A França tem a maior proporção de funcionários públicos dentre os países da OCDE (25% da população ativa) e uma das maiores cargas tributárias dentre os países industrializados.

Vive-se principalmente das glórias do passado, como as famílias arruinadas que tentam mas não conseguem mascarar a decadência. O IDH francês já caiu para 17º na Europa. O IDH gaúcho, que já foi propagado como um grito de auto-estima, não garante prosperidade pois não vem acompanhado de uma mentalidade pró-produção. De bons IDHs sucumbiu a Argentina com uma economia conservadora e mentalidade autocentrada.

Vale lembrar que o Rio Grande é campeão em exportação de mão-de-obra. O fato de encontrar-se um gaúcho em qualquer lugar do Brasil ou do mundo não deveria ser prova de júbilo ou universalismo, mas sim um atestado da baixa condição de oferecer bons empregos a nossos filhos, em todos os níveis profissionais. A recusa em reciclar-se, o culto exagerado a glórias do passado e uma geração jovem atônita, sem oportunidades, é o retrato de um Estado brasileiro que tem muito de francês no sentido pejorativo do termo.

Quando Mário Covas falou em “choque de capitalismo” para o Brasil no final da década de 80, mesmo que tardiamente, prenunciou as reformas que viriam adiante, mas não foram completadas. No Rio Grande, elas foram apenas iniciadas, e logo descontinuadas. Nos falta a coragem de romper com discursos ultrapassados e uma agenda econômica antiga. Para sustentar os corporativismos, a máquina estadual tem que manter uma fúria fiscal de deixar o xerife de Nottingham corado. As funções-fim de governo estão cada vez mais dilapidadas, e os governadores têm pouco espaço de atuação senão ser um equilibrista de contas. Alguns o fazem com mais responsabilidade do que outros. Às vezes ainda conseguem atrapalhar, como o lampejo de atraso que deixou uma belíssima oportunidade econômica para a Bahia e espraiou ódio e radicalização que apenas aceleraram a “malaïse”, falta de motivação da população gaúcha.

Sem a oportunidade de bons empregos, é difícil enxergar nosso futuro. Não precisamos ir longe, podemos olhar com mais cuidado para transformações que vêm acontecendo em Goiás, Mato Grosso do Sul .

A pior vergonha é a vergonha da pobreza. A baixa auto-estima tem sua face inversa nas prendas e baguais que lançam bravatas ao ar, mas há muito sabem que são apenas bravatas.

Sejamos franceses em apreciar bons vinhos, boa culinária, no gosto pelo melhor da cultura ocidental. Mas sejamos brasileiros e cidadãos do mundo em buscar soluções urgentes para nossa economia. E utilizar a nossa tão cara altivez gaúcha para mostrar serviço e capacidade de inovação. As melhores tradições de pouco adiantam se são sucedidas pela procrastinação, mesmice e falta de pragmatismo. Não vamos cair na mesma armadilha da França. Do nosso futuro ninguém vai cuidar senão nós mesmos.

Para debater com mais detalhe esta questão, veja o artigo “RS: Rompendo a Barreira da Pobreza”, na seção Brasil em Desenvolvimento,também neste site.

Gustavo Grisa

Reprodução autorizada mediante consulta ao autor.

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