|
Brasil em Desenvolvimento
Empregos Industriais, Produtividade e a Velha Retórica
Os empregos industriais estão diminuindo em todo o mundo. Segundo estudos dos economistas da Alliance Capital, publicado pelo Wall Street Journal, entre 1995 e 2002 foram perdidos 22 milhões de empregos no setor industrial em todo o mundo, uma queda de 11%.A exceção são economias que se beneficiaram da formação de blocos econômicos, como o Canadá e o México (NAFTA) e a Espanha (UE). As razões da diminuição histórica dos empregos na indústria é conhecida: ganhos de produtividade e avanços da tecnologia.Na China, os empregos manufatureiros caíram de 98 milhões para 83 milhões em 7 anos, enquanto que o PIB industrial mais do que dobrou neste período.
O dado mais interessante do estudo da Alliance Capital é que o Brasil é o campeão de perda de empregos industriais dentre os 20 países pesquisados. Perdemos praticamente 20% de nossos empregos industriais de 1995 (19,9%), o que já seria o suficiente para provocar ânimos exaltados e chavões furiosos “contra o FMI e o neoliberalismo de FHC”.
É bem verdade que a abertura sem critério para importações e as flutuações do câmbio provocaram um efeito sanfona no setor produtivo brasileiro que não ajudou muito. Tampouco o baixo crescimento da economia a partir de 1999.
Mas aumentamos a produtividade de nossa indústria como poucos outros países no mundo, melhorando os padrões de gestão e de excelência na produção, tanto que as taxas de desemprego global não foram brutalmente afetadas no período. O setor serviços de certa forma evoluiu e absorveu parte desta mão-de-obra.
O problema estrutural são os cronicamente sem-emprego. Os que perderam seu emprego e nunca o terão de volta, por não ter qualificação suficiente para agregar a produtividade necessária do investimento em um posto adicional de trabalho no setor industrial ou até mesmo de serviços. Ou pior, aqueles que jamais terão emprego na economia formal, pelos mesmos motivos. A figura romântica do operário com pouca instrução e dependente de esforço físico para trabalhar está em extinção. As indústrias intensivas em mão-de-obra devem ser transferidas para países com condição sistêmica inferior à nossa.
Isso significa que temos que ganhar corpo em setores de maior valor agregado, gerando receita para repartir socialmente em programas que visem exatamente a formação de profissionais mais bem qualificados. Profissionais bem qualificados provêm de cidadãos decentemente desenvolvidos, com boa educação, saúde e estrutura social. E com uma visão pragmática de mundo.
Temos que eliminar de vez as ilusões e retórica da sociedade industrial. Esse era um dos propósitos no planejamento estratégico do governo norte-americano ainda na década de 60 - preparar os EUA para a sociedade pós-industrial. Os avanços mais recentes na economia da informação fizeram os EUA aumentar vertiginosamente o bem-estar médio de suas famílias mesmo com perda sistemática de empregos no setor industrial durante toda a década de 90 (de 1997 a 2002, os norte-americanos perderam 11,3% dos seus empregos na indústria).
Um bom começo seria controlarmos a fábrica de ilusões do populismo. O sinal mais anacrônico de nosso atraso foram os chavões eleitorais das últimas eleições: José Serra prometia 8 milhões de empregos, Lula venceu a eleição prometendo 10 milhões. Algo impensável em um panorama de ganho – saudável, é bom que se diga- de produtividade industrial.
A livre movimentação do trabalho (não dos trabalhadores), os deslocamentos criados pelos blocos econômicos e os ganhos de produtividade estão mudando profundamente o conceito de trabalho e emprego. O que podemos concluir de imediato é tão somente que o entendimento de mundo que tínhamos já não serve. Talvez outros tenham se dado conta disso antes de nós. Esse é o jogo global da competitividade.
Gustavo Grisa
Reprodução autorizada mediante consulta ao autor.
Comente esse artigo com o autor
Se você deseja receber periodicamente estes artigos, cadastre-se aqui.
Indique este artigo.
| Leia também o último artigo da seção Tendências Internacionais:
|
29/03/2010 - O Fórum Urbano Mundial e o Futuro das Cidades
02/05/2010 - Como é Difícil Investir no RS
06/10/2009 - A Olimpíada como Vetor de Desenvolvimento
06/08/2009 - O Rio Grande Não Pode Parar
02/07/2009 - Pré-crise nas Finanças Públicas?
25/06/2009 - A Crise Mundial e o Reposicionamento de Cidades e Regiões
04/05/2009 - O 1º de Maio do Silêncio
13/04/2009 - RS: O que é Vencer a Crise
16/01/2009 - A Estratégia Brasileira e o Tempo da Crise
08/12/2008 - Gastos Públicos: Na Contramão da Crise
01/10/2008 - Brasil, Despreparado para a Crise?
07/08/2008 - Ficha Suja: A Política cada vez Mais Criminalizada
13/07/2008 - Brasil: Oportunidades de um BRIC Tardio
04/07/2008 - RS: A Hora e a Vez da Agenda Econômica Positiva
19/06/2008 - Stora Enso: Repulsa ao Desenvolvimento?
15/05/2008 - Tetos Salariais: Vitória do Povo Gaúcho
12/05/2008 - RS: Capacidade de Investimento, Já!
04/03/2008 - RS: Vencendo o Medo do Futuro?
17/11/2007 - RS: A Triste Vitória do Fundamentalismo
29/10/2007 - RS: Enfrentando os Privilégios Corporativistas
08/10/2007 - O pacote de Yeda é bom; pode ser mais amplo
23/08/2007 - O RS Contra os Corporativismos
21/08/2007 - São Paulo e o Desenvolvimento (In)Sustentável
29/06/2007 - Desmoralização do Congresso: O Silêncio dos Inocentes?
06/06/2007 - A Bomba-Relógio do Assistencialismo
13/04/2007 - 10 Razões para o “Asco da Política”
16/03/2007 - Economia do Conhecimento:Por que Demoramos Tanto?
06/02/2007 - RS: 5 Ações para Vencer a Crise Por Trás da Crise
15/12/2006 - Aumento de 100%, Ato de Covardia
17/11/2006 - Brasil, 2007: Não estamos entendendo nada...
06/10/2006 - De Rigotto a Yeda: Assim Caminha o Rio Grande
06/09/2006 - O RS Pós Pacto e Agenda
31/08/2005 - O Maior Crime contra o Brasil
22/06/2005 - Corrupção e Medo do Futuro
03/06/2005 - O Brasil sob os Olhos dos Estrategistas Internacionais
18/05/2005 - A Tragédia das Prioridades Invertidas
27/04/2005 - Somos Todos um Pouco Severinos
17/03/2005 - RS, um Novo Nordeste?
08/03/2005 - O País dos Conformistas
23/02/2005 - O Inconsciente Coletivo de 2006
26/01/2005 - A Oportunidade de uma 'Nova Fronteira' para o RS
10/01/2005 - Reforma Trabalhista antes da Reforma do Estado?
25/12/2004 - Pacote de Impostos no RS: Uma Abordagem Realista
10/12/2004 - Reforma Agrária: Muito Barulho por Nada
19/11/2004 - Brasil e China: Muitas Dúvidas, Poucas Certezas
15/10/2004 - Competitividade e Investimentos: Caindo pelas Tabelas
01/10/2004 - O Brasil e o Mapa da Nova Economia
10/09/2004 - A Hora e a Vez de Desonerar o Setor Produtivo
27/08/2004 - O Permanente e o Transitório na Explosão do Agronegócio
02/08/2004 - Governos Municipais e Construção do Futuro
08/07/2004 - Bill Clinton, um Aliado do Brasil
19/06/2004 - A Agenda Econômica do Governo até 2006
03/06/2004 - Desenvolvimento sem Empresas Fortes é Ficção
03/05/2004 - Competitividade Sistêmica é o Melhor Caminho
12/03/2004 - É Possível Discutir Pobreza e Desigualdade sem Demagogia?
27/02/2004 - 2004: O Ano dos Aniversários
06/02/2004 - A Sociedade Civil e o Desenvolvimento
23/01/2004 - Negligenciar Educação e Tecnologia é Exterminar o Presente
09/01/2004 - Por que Caem os Investimentos Internacionais
05/12/2003 - O Perigoso Distanciamento do Centro
21/11/2003 - Índice de Acesso Digital do Brasil é Bastante Razoável
03/10/2003 - 100 Anos de Economia Brasileira: Vamos Comparar?
18/09/2003 - A Reforma Fiscal e o Estrangulamento da Economia
19/08/2003 - No Agronegócio, Nossos Vícios e Virtudes
05/08/2003 - O Vazio Analítico das Empresas
22/07/2003 - O Risco da Agenda Vazia
22/07/2003 - Caminhos para a Evolução da Gestão de Governo
08/07/2003 - Análise de Risco Político e Investimentos Internacionais
08/07/2003 - Exercício de Análise de Risco Político– BRASIL 1S03
24/06/2003 - Rio Grande do Sul: Rompendo a Barreira da Pobreza
10/06/2003 - Educação Superior e Meritocracia
03/06/2003 - A Difícil Vida de um Aspirante a “Global Trader”
05/05/2003 - A Oportunidade do Governo Rigotto
05/05/2003 - O Trem da História Está Passando de Novo...
|
|
|