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Tendências Internacionais
Howard Dean, Eleições nos EUA e o Brasil em 2006
Talvez seja cedo para pensarmos nisso, mas de tempos em tempos, as referências das democracias mundiais sofrem substituição de “role models”, ou seja, posicionamento e retórica de líderes bem-sucedidos nos EUA e Europa são copiados na América Latina e Leste Europeu, principalmente. Por muito tempo houve a busca do estilo Kennedy, mais recentemente do ex-premier espanhol Felipe González.
Muitas vezes estas influências são mais perceptíveis na retórica dos marqueteiros do que na substância dos programas de governo.
A influência psicológica é bastante interessante: Fernando Henrique adotou em sua primeira eleição, em 1994, estética e idéias semelhantes à campanha de Bill Clinton em 1992. A “sacada” do marqueteiro James Carville – “It´s the economy, stupid!”chamou o eleitor norte-americano para a racionalidade junto com um vago sentimento de mudança. Fernando Henrique era a própria figura da racionalidade, por isso naquele momento totalmente inovador em um país cansado de pirotecnia. E o seu elegante traço intelectual de Saint-Germain-des-Prés garantia o trânsito da candidatura em determinados setores da “esquerda festiva”.
A eleição de George Bush e Lula também traz alguns paralelos interessantes, a despeito do propagado abismo ideológico. Na prática, são dois homens com perfil diferente do estereótipo de presidente, que procuram utilizar figuras simples de linguagem e a idéia de “um homem comum” comandando o Governo (ainda que em Bush, filho de ex-presidente, este apelo soe um tanto artificial). As candidaturas dos adversários Gore e Serra representavam a herança de governos bem-sucedidos, traziam em comum uma argumentação baseada na racionalidade e uma relação ambígua com este próprio Governo. Por mais que Serra e Gore tentassem trazer o debate para o campo objetivo, a eleição já estava decidida, em ambos os casos, pela compreensão da “hora e a vez” que seus adversários souberam captar.
Lulinha Paz e Amor foi muito mais competente ao captar o inconsciente de um país carente por afeto do que o confuso “compassionate conservatism” de George Bush. O resultado foi visto na própria votação, é bom lembrar que Bush perdeu a eleição por número de votos populares.
Se a última eleição norte-americana com debate objetivo foi a de 1992 (a primeira vitória de Clinton ), a última brasileira, por incrível que pareça, foi a de 1989, talvez a de 1994 até determinado ponto. As de 1998 e 2002 foram pobres em quantidade e qualidade de debate.
Por isso que a ascensão de Howard Dean , ex-governador de Vermont, candidato às primárias democratas norte-americanas, é um fator novo e marcante nas eleições de 2004. Torço, por todas as democracias do mundo, que ele consiga efetivamente ser o candidato democrata “contra” George Bush e não qualquer outro candidato concorrendo “com” George Bush. Por que Dean traz uma plataforma e retórica com diferenças claras: se opõe à participação dos EUA como “polícia do mundo”, quer melhorar a previdência e educação e tem uma agenda política, de opinião de verdade e posição sobre temas polêmicos. Um candidato de sonho para os liberais (intelectuais de centro-esquerda) de Boston e Nova York. E pesadelo para quem está na Casa Branca, por ser imprevisível e ter pouco a perder.
Independentemente da possibilidade de vitória, Dean obrigaria a eleição norte-americana de 2004 a ter debate verdadeiro no campo político e de orientação de governo. E um traço deste debate poderá se projetar na eleição brasileira de 2006.
Por aqui, o abandono do “vermelho furioso” pelas lideranças mais esclarecidas do PT pode resultar tanto num partido pragmático,evoluído de esquerda – o que seria ótimo para o debate e a maturidade de nosso sistema político-, ou num monstrengo fisiológico-populista ao estilo PTB de Jango. Aí está o ponto de partida da eleição 2006. É bastante razoável a chance de termos debate qualificado nas próximas eleições presidenciais, principalmente se tivermos 3 candidatos com qualificação mínima para a disputa. A própria evolução das partes, no Governo e na oposição, contribuirá para o salto de qualidade.
De tempos em tempos, por mais que a competência do marketing e as articulações políticas tentem tornar as eleições simples, o inconsciente coletivo pede por um pouco do velho e bom conteúdo.
Agora que evoluímos tanto, incluindo a saudável alternância no poder, merecemos uma eleição com conteúdo em 2006. Contamos com as influências externas para ajudar isso a acontecer. E Howard Dean tornar-se candidato democrata nos EUA tem a ver com as nossas eleições, sim.
Confira o estilo de campanha de Dean no site www.deanforamerica.com
Gustavo Grisa
Reprodução autorizada mediante consulta ao autor.
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