|
Tendências Internacionais
A Gangorra Cambial, a China e a Competitividade Artificial
Discussões têm aflorado nas últimas semanas no Brasil trazendo de volta o velho dilema da política cambial. Os defensores de uma retomada do crescimento econômico a qualquer custo defendem a manutenção de um real desvalorizado como saída para aumentar as exportações, gerar empregos internos e melhorar as contas externas,tornando o país teoricamente menos vulnerável a crises externas.
A tese da competitividade artificial das exportações, impulsionada por uma taxa de câmbio exageradamente desvalorizada, é um dos verdadeiros segredos do sucesso das exportações de países como a China, Coréia do Sul, e, em um grau mais reduzido, Chile. Para o investidor internacional, os ativos e a mão-de-obra tornam-se ainda mais baratos em dólar, ou euro.
Competitividade em exportações não significa necessariamente competitividade da economia. Pelo contrário, ao encarecer a importação de insumos básicos e dizimar as receitas de vendas locais, pode-se desestimular a oferta ao mercado interno. O modelo de substituição de exportações esbarra nos poucos interessados em produzir para o mercado interno, ainda mais em um ambiente de juros altos. O grande negócio passa a ser a exportação, o que seria ótimo em um país pequeno ou com um mercado interno imaturo.
Os temores na China
A discussão sobre o câmbio e sua influência na economia real não é exclusividade brasileira no momento. Há rumores de que o governo chinês poderia valorizar o yuan (moeda local), que há 9 anos está cotado a uma taxa de 8,28= US$ 1. O principal temor é dos efeitos da diminuição deste mecanismo de competitividade artificial que tem feito da China um fenômeno mundial de exportações. Dentre os riscos enumerados estão uma diminuição na produção, queda na renda e no número de empregos de maior remuneração.
O que está em jogo, antes de uma política A ou B, é a manutenção de um sistema que proporcionou um determinado posicionamento dos agentes econômicos, ou a sua quebra. A argumentação de alguns analistas contrária à mudança nas regras é a mais lúcida. As economias se adaptam a qualquer regime cambial, desde que persista. Dificilmente sobrevivem ao abre-fecha de regimes ora subvalorizados, ora supervalorizados. Não há competitividade real que sobreviva aos artificialismos. Basta olhar mais uma vez para a Argentina.
A velha receita de realismo cambial e evolução efetiva nos fatores sistêmicos de competitividade e diminuição do risco-país –como gestão de governo, educação, combate à corrupção, segurança interna- , ainda que de efeito demorado, é a única capaz de assegurar resultados mais duradouros com menores contra-indicações.
Pensando pragmaticamente nos últimos 20 anos, a gangorra cambial ainda não liquidou o setor produtivo de capital nacional por algum DNA de sobrevivência e regeneração muito forte. Pensar em política econômica sem considerar o planejamento e a estratégia das empresas é agir como quem não entende o que é competitividade na vida real.
Gustavo Grisa
Reprodução autorizada mediante consulta ao autor.
Comente esse artigo com o autor
Se você deseja receber periodicamente estes artigos, cadastre-se aqui.
Indique este artigo.
| Leia também o último artigo da seção Brasil em Desenvolvimento:
|
02/05/2010 - Como é Difícil Investir no RS
29/03/2010 - O Fórum Urbano Mundial e o Futuro das Cidades
09/03/2010 - O Chile e a Reconstrução das Cidades
16/12/2009 - Copenhague e a Sustentabilidade Pop
13/04/2007 - Espanha: Como se Constrói uma Potência ?
16/03/2007 - Uruguai- A ´Sacudida´de Tabaré Vasquez
05/09/2006 - A Europa Expandida e Suas Preocupações
31/08/2005 - EUA Compensam Pequenas Empresas por Perdas Comerciais
21/07/2005 - ‘The World Is Flat’ - A Cara do Século XXI
22/06/2005 - Biotecnologia: Aposta dos EUA
18/05/2005 - Inteligência Estratégica em Governos e Terceiro Setor
27/04/2005 - A Dimensão ‘BRIC’: Um Novo Contexto Internacional
08/03/2005 - Um Certo Thierry Breton
23/02/2005 - A Sucessão no Banco Mundial
08/02/2005 - As Doze Lições de Robert Rubin
09/01/2005 - O Chile e o Choque de Internacionalismo
10/12/2004 - A Segunda Fase da Política de Alta Tecnologia da Índia
19/11/2004 - O Que Esperar do Segundo Governo Bush
29/10/2004 - Uma Liderança Fora da Média para a Europa
29/10/2004 - O Desafio Uruguaio
27/08/2004 - O Drama Mundial dos Jovens Desempregados
08/07/2004 - Investimento em Comunicações Integradas na Irlanda
20/06/2004 - Unctad, São Paulo: O Desalinho dos Não-Alinhados
04/06/2004 - CeBIT: As novas tecnologias garantem o crescimento
03/05/2004 - A Colômbia Possível de Uribe
12/03/2004 - A União Européia Vai para o Leste
27/02/2004 - Entendendo o Contexto de Índia e China
23/01/2004 - Portugal na UE: Navegar é Mais do que Preciso
19/12/2003 - O RS é a França do Brasil
05/12/2003 - Um Choque de Oportunidade para a Classe Média
21/11/2003 - Rússia: Crescimento Desordenado e Reorganização da Economia
07/11/2003 - Argentina: Pragmatismo Em Busca do Tempo Perdido
18/09/2003 - O Outro Lado da Influência Brasileira na A.L.
02/09/2003 - Howard Dean, Eleições nos EUA e o Brasil em 2006
02/09/2003 - Como a Turquia Está Retomando o Crescimento
05/08/2003 - Competitividade: o México perde espaço para a China nos EUA
24/06/2003 - Irlanda e Canadá:Biotecnologia como Prioridade
10/06/2003 - As SMART Schools da Malásia
03/06/2003 - Bangalore (Índia) e a Aventura do Desenvolvimento (Parte II)
27/05/2003 - Inclusão Digital na Prática:As Cabinas Públicas de Lima
27/05/2003 - O Mercosul entre Mendoza y San Juan
20/05/2003 - A Realidade do E-commerce e o Desconforto dos Má-Notícia
13/05/2003 - A ALCA e o Tigre de Adenauer
13/05/2003 - Bangalore (Índia) e a Aventura do Desenvolvimento- Parte I
00/00/0000 -
|
|
|