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Brasil em Desenvolvimento
O Risco da Agenda Vazia
Dizia um velho amigo fazendeiro de São Gabriel (RS) que nunca se deve falar confusamente sobre o que se conhece apenas vagamente. O risco de passar vergonha é simplesmente muito grande. Pode atrapalhar uma carreira nascente, ou lançar dúvidas sobre a senilidade de alguém mais experiente. Mais do que isso, pode perpetuar uma injustiça.
Essa máxima me vem à memória com uma freqüência um pouco desconfortável ao acompanhar o dia-a-dia do novo Governo. A história nos ensina que pequenas gafes e trapalhadas são comuns e acontecem nas melhores famílias. Até ajudam a enriquecer o folclore político e a marcar presença, como aconteceu no passado com as célebres Figueiríadas e as muitas de Itamar. Afinal, a graça e o traquejo social, ainda que virtudes desejáveis e até invejáveis, não necessariamente fazem parte do estilo de todas as pessoas decentes, honestas e de ação.
O problema da orquestra por vezes desarranjada do Governo Lula não é de forma, e sim de substância. Na política externa, os arrufos ora excessivamente amistosos, ora hostis podem transparecer uma ambigüidade de agenda. Na última reunião com Tony Blair, ao criticar os EUA com pouca diplomacia, nosso mandatário relembrou um ditado que ele certamente conhece dos longos debates formais e informais da vida: quem diz o que quer, pode acabar ouvindo o que não quer.
Infelicidades pessoais à parte, a razão das inquietações é a suspeita de que a estratégia está em falta nos negócios internos e externos. Talvez por isso tantos cacos, tantas "gags". Pode ser a busca da compensação para a inconsistência do roteiro. Por sorte, Lula é no momento um pop star de tamanha magnitude que tem conseguido sustentar os aplausos a despeito do script confuso, que já incluiu até uma singela "teoria do abraço" como solução para o mundo.
Quem terá sido o roteirista que colocou o Presidente na saia justa de pedir investimentos aos empresários espanhóis, enquanto ainda pairava o desconforto das trapalhadas no aumento da telefonia? É no mínimo razoável imaginar que todos estejam muito bem informados sobre o que acontece em nosso país.
Resta agora a expectativa pelo espetáculo do crescimento econômico, prometido para agosto. Torço para que não seja mais um passo em falso. Já houve desconforto com o Movimento sem Terra no Sul, no Nordeste, um tudo ou nada da reforma da Previdência, que acabou sendo um quase nada. O Fome Zero é uma caixa de vagas intenções e explicações, será esta a melhor política de erradicação de pobreza que podemos produzir? O big brother do exercício do poder é muito complicado, pode-se argumentar. É verdade, mas não se sabia disso antes?
Mais do que ninguém, quem produz, gera empregos, trabalha e depende de bons empregos e quer ver seu país crescer e prosperar é quem tem o que perder ou ganhar. E espera que o show inicial comece a tomar substância. Com bom senso.O ardil da história brasileira não são os passos em falso em si, mas as oportunidades que perdemos por não saber priorizar.
Já que a metáfora está na moda, não é só no futebol que se vive de resultados. Toda a sociedade civil precisa de resultados e com certeza pode ajudar.Começando por qualificar o debate. O que se vê em nossa opinião "publicada" é por ora excesso de indulgência com manifestações oficiais superficiais e atrasadas, em outros momentos excessiva crueldade ao apontar para gafes e futilidades, sempre fugindo do debate objetivo.
Tomara que seja tudo apenas folclore e graça, e a preocupação com uma eventual agenda vazia não seja procedente. A minha preocupação é sincera e bem intencionada. Apenas um celerado gostaria de ver um Governo atrapalhado. A era dos incendiários e das pirotecnias já terminou há muito tempo, é retórica do passado. Viva a continuidade democrática, a temperança e a responsabilidade.
Gustavo Grisa
Reprodução autorizada mediante consulta ao autor.
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