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Rio Grande do Sul: Rompendo a Barreira da Pobreza


A pobreza econômica, cultural, ou política tem as mesmas raízes: a incapacidade de adaptar-se às mudanças do mundo e o apego a práticas, valores e crenças de um arranjo institucional e cultural formatado para outros tempos e interesses. Basta olharmos para a Argentina. Os argentinos estiveram por décadas plenos de atitude, altivez e rica retórica. E isso em nada lhes adiantou. Os vícios do estatismo, radicalismo político e conservadorismo econômico os estrangulou, cruelmente, aos poucos.

Os fatores clássicos que separavam o desenvolvimento do subdesenvolvimento, como condições naturais, étnicas, climáticas e populacionais já foram desmentidos por ciclos virtuosos que transformaram países como a Coréia do Sul, Cingapura, Espanha, Austrália, Portugal e pela própria reconstrução européia e japonesa no Pós-Guerra.

A pobreza a que nos referimos no Rio Grande do Sul é a incapacidade de regenerar-se, de avançar, de incorporar as mudanças do mundo com uma lógica capitalista moderna. Grande parte das questões econômicas que encontramos em discussão na mídia do Estado são idênticas àquelas anteriores à primeira metade deste século, às vezes com uma visão bucólica de economia agropastoril que beira o quixotesco. Os investimentos na manutenção de antigos privilégios, a não-renovação da classe empresarial, a dependência de atividades de baixo valor agregado e commodities não serviram para impulsionar industrialização, internacionalização e uma sociedade do conhecimento. Basta percorrer o interior do Estado para verificar que a pobreza viceja, e o futuro está estrangulado.

Os bolsões de atraso cultural e baixa geração de renda sempre existiram, e nunca foram assumidos de frente pela sociedade gaúcha. A leitura de nossos indicadores econômicos e sociais pode induzir à ilusão , carregada de preconceito, de que trazemos aspectos sociais mais evoluídos do que outros Estados brasileiros e estaríamos mais próximos de erradicar a miséria e a pobreza. No entanto, uma análise um pouco mais criteriosa de nossa dinâmica nos últimos 30 anos mostra o quanto nos distanciamos deste caminho. O Haiti também é aqui. Hoje já se sabe que sem uma economia com capacidade de regeneração e uma mentalidade capitalista aberta para o mundo, de nada adianta ter um IDH alto ou uma condição social menos vexatória.

Atrás da persistência de distorções crônicas alimentam-se as pragas do populismo e da vulgarização da política. E com elas, o sepultamento das esperanças reais.

Antes do que simplesmente atrelar projetos a interesses políticos de curto prazo de partidos ou lideranças A ou B, romper com a barreira do pobreza é desenvolver uma visão estratégica do que queremos ser, e executá-la. Incorporando o doloroso porém necessário rompimento com vícios do passado. Um dos vícios, a canhestrice de creditar e cobrar tudo apenas e tão-somente do Governo, como se este não fosse reflexo da sociedade.

A pobreza e o atraso envergonham, massacram, acabam com a esperança e o bem-estar de famílias e comunidades inteiras. Doeria mais ainda se esses tivessem a consciência do quanto elas são fruto de falta de gestão, estratégia de médio/longo prazo e baixo comprometimento de seguidas administrações públicas e lideranças da sociedade organizada.

Romper a barreira da pobreza é aproveitar as oportunidades das mudanças do mundo, e com elas construir o futuro. Alguns pontos podem até parecer óbvios ou consensuais, mas foram desprezados em alguns momentos por lideranças políticas e econômicas:

· Trazer o melhor de racionalidade econômica a atenção às oportunidades da economia global, vinculando rapidamente a matriz produtiva ao que existe de mais moderno no mundo;

· Priorizar o investimento em educação, procurando incluir quem está alijado do processo natural de desenvolvimento através da inclusão digital e da assistência plena, com meritocracia;

· Fomentar o livre debate de idéias e a crença democrática, sem vincular a estrutura institucional do Estado a ideologias facciosas ou a verdades únicas;

· Manter um meio-ambiente renovável e adequado à prosperidade econômica e qualidade de vida;

· Ter a coragem de romper com crenças, falácias e populismo e investir no agronegócio dentro da lógica capitalista, incorporando biotecnologia e logística;

· Auxiliar o desenvolvimento social, com amplos programas de extensão social, combate à drogadição e alcoolismo, endêmicos em determinadas regiões e faixas etárias;

· Construir na administração estadual instrumentação adequada para que esta seja planejadora e executora de programas de desenvolvimento, valorizando as carreiras típicas de Estado e tendo como princípios a técnica, o profissionalismo e a transparência na relação com a Sociedade.

O ciclo do desenvolvimento não traz resultados da noite para o dia. Como primeiro passo, vamos vestir o manto (ou poncho, como preferirem) da humildade e trabalhar.

Um bom início é a consolidação de um ambiente em que coexistam vontade política, convergência e bom senso. Um objetivo que a administração Rigotto tem conseguido, diminuindo o isolamento do Governo estadual que ainda é a maior força de mobilização que temos para o desenvolvimento. A maior, mas de forma alguma a única.

Falta ainda uma segunda conquista: a oxigenação com idéias inovadoras, senso de oportunidade e execução diligente. Sem a primeira conquista não se atinge a segunda. Sem a segunda, de pouco adianta a primeira.

Gustavo Grisa

Reprodução autorizada mediante consulta ao autor.

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