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Brasil em Desenvolvimento
A Difícil Vida de um Aspirante a “Global Trader”
Ao analisarmos a pauta brasileira de exportações, notamos a evolução em termos de valor agregado. Da mesma forma, o número de países que constam como importadores. O Brasil passa a ter voz e espaço na OMC e no cenário internacional. Empresas são reconhecidas como pólo de excelência operacional e comercial. Como resultado, somos demandados a nos posicionar de modo diverso à arenga terceiro-mundista de praxe, de câmbio superdesvalorizado e commodities competitivas.
O limão azedo de todo esse processo de abertura para o mundo- que pode, sim até virar limonada-é a constatação do quanto estamos desaparelhados para enfrentar as batalhas comerciais que serão cada vez mais frequentes e silenciosas.
Estamos no meio de um jogo diferente, subimos de divisão, por assim dizer. É óbvio que nossos adversários tambem são diferentes. Um tipo de jogo em que não podemos mais entrar com instrumentos de uma idade da inocência em que visitinhas de Estado, feiras comerciais e coquetéis para a imprensa já bastavam para um trabalho razoável de lobby comercial. Naquele tempo, nossas aspirações eram outras- estávamos começando a despertar para o mundo. Isso foi lá pelos idos do início dos anos 70.
Hoje a defesa pública e privada de interesses comerciais está misturada de tal forma que é dificil discernir quais são os interesses que estão em jogo; a verdade é que enquanto discutimos o sexo dos anjos, os Estados Unidos, o Japão e a União Européia (principalmente a França) realizam ambiciosas operações de inteligência comercial no Brasil. E estão certíssimos em fazê-lo, assim como estaríamos certíssimos em fazer a mesma coisa. Enquanto eles sabem exatamente sobre quais setores investir, com quem negociar, e que tom utilizar para cumprir seus objetivos, nós nos prendemos a discussões estéreis e a pensamentos burocráticos, onde à variável “tempo” se dá uma dimensão mínima.
O que nós sabemos sobre nossos potenciais clientes, parceiros ou concorrentes no Exterior? De maneira articulada, democratizada, organizada, muito pouco. Por que? Por que no Brasil não se fala, não se divide informação sobre esse tipo de assunto. Por que mais de dez, quinze organismos, públicos e privados, tentam fazer a mesma coisa ao mesmo tempo. E, sim, por que falta pragmatismo e humildade para se planejar e, principalmente, se colocar na rua uma política comercial consistente que fuja ao simples confinamento às idas e vindas da política macroeconômica, e que esteja diretamente relacionada com estímulos ao desenvolvimento industrial.
Certamente não nos faltam cérebros para fazê-lo, nem estatura econômica para financiar uma iniciativa dessas. O que falta é articulação, pragmatismo e agressividade. A Agência Brasileira de Investimentos, presente na mensagem de FHC ao Congresso em 1997 (será que alguém ainda lembra?), ate agora não passou de sonho- mas constitui uma bela oportunidade que não deve ser perdida. Da mesma forma, o Plano Plurianual contemplava a integração dos sistemas de inteligência comercial. Mas, quando? O nosso pequeno “JETRO”, ou “US Commercial Service” precisa decolar.
O atraso nos leva a uma vantagem transformada em oportunidade: por começar agora, não precisamos nos ater a uma pesada burocracia- nem criar um gigante, ou duplicar funções. A chave do sucesso dessas organizações é a sua rede de informações e credibilidade, que só vem como resultado de um trabalho sério, profissional e ágil, onde o ciclo inteligência- estratégia- lobby – ação se recicla com incrível rapidez.
E nada se faz, em lugar algum, sem peso e sustentação política. Já chega o quanto ficamos sentados nas tamancas na questão da Tecnologia da Informação, com a Coréia, a Índia crescendo e disparando diante dos nossos olhos, oferecendo um sem-número de empregos decentes à sua população e exportando como nunca. Será que é tão difícil juntar quem tem um cachorro nessa briga, planejar, apontar e atirar?
Não podemos esperar que outros façam por nós o que não fazemos: o prato terá sempre o tempero ao gosto de seu chef. Esperar que outros se sensibilizem apenas com nossos lindos olhos e palavras de amor é no mínimo ingênuo. A verdade é que temos que fazer nosso tema de casa, trabalhando com profissionalismo e agressividade no campo externo, e desenvolvendo políticas internas diretamente relacionadas, em ritmo “fast track” (já que o termo está na moda). Amigos, amigos, negócios a parte- e é assim, não adianta chorar. Se quisermos brincar de “global trader”, temos que estar preparados para o jogo. Técnica e psicologicamente.
Ou então mais uma vez vamos comer prato feito. Talvez não seja tão ruim assim, mas por via das dúvidas é melhor se mexer agora para não ficar pedindo sal de frutas mais tarde...
Gustavo Grisa
Reprodução autorizada mediante consulta ao autor.
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