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O Mercosul entre Mendoza y San Juan


Yo no sé, yo no sé lo que me pasa,
que no pue, que no puedo caminar.

Pensarán, pensarán que estoy borracho,
y ha de ser, y ha de ser debilidad

("Entre Mendoza y San Juan", folclore argentino)

A célebre peça do cancioneiro andino, ainda bastante conhecida na terra de Kirchner, é uma espécie de ode local a Santo Onofre, uma mistura de “Chão de Estrelas” com “Turma do Funil” para os argentinos. Mas pode muito bem ser transportada para a situação em que chegamos com o Mercosul.

Vamos nos prender nos dois protagonistas, Brasil e Argentina, e suas relações.Se perguntarmos a formadores de opinião sobre os rumos que nosso Mercado Comum deve andar, ouviremos diagnósticos díspares, alguns lugares-comuns e afirmações vazias que escondem uma constatação do tipo “eu não faço a mínima idéia do que devemos fazer...”.

Entre declarações superficiais de amizade eterna e boas intenções, pouco temos avançado nos últimos anos.

É bem verdade que a Argentina entrou em um turbilhão de problemas internos que culminou com o ato de teatro de revista de don Carlito Menem. O Brasil, a despeito da agitação na época das eleições, fez um papel importante, solidário, e cresceu como referência externa para os argentinos. De certa forma, culturalmente, a coisa evoluiu. Muito mais para eles, absorvendo nossa cultura, do que para nós. E talvez nosso ombro amigo tenha sido o único, pois naquele momento foram esquecidas de vez as alusões às deprimentes “relações carnais” com os Estados Unidos ensaiadas por Menem e Cavallo.

Se vamos bem nas humanas, nas exatas a coisa é complicada. Consórcios para exportação a terceiros mercados ainda é algo pouco explorado, políticas comuns para marcas, patentes, biotecnologia precisam evoluir. Não existe política comum para terceiros mercados se não houver uma mínima resolução sobre quais devem ser os nichos do comércio internacional a ser particularmente desenvolvidos. A oportunidade de investimentos por brasileiros em ativos depreciados em nossos vizinhos também tem merecido pouca atenção.

O momento estratégico escolhido pelos EUA para discutir a ALCA está corretíssimo. Procurar avançar em meio a discursos vazios e ao momento poético entre Mendoza y San Juan em que nos encontramos é o mínimo que um estrategista pragmático faria.

Sem termos um plano mínimo, de pouco adianta vestir a estética da pobreza e levar a velha cantilena de terceiro mundo ao G-8.


Gustavo Grisa

Reprodução autorizada mediante consulta ao autor.

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