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Brasil em Desenvolvimento
O 1º de Maio do Silêncio
O dia primeiro de maio, ainda que não tenha mais a conotação política que teve nos anos da redemocratização ou da era Vargas, apresenta-se como uma oportunidade legítima para a expressão das questões do trabalho. Em uma circunstância normal, o espaço é razoável e tradicional a manifestações políticas. Em uma circunstância de recessão e perda de empregos em todo o mundo, o 1º de maio esteve, como não poderia deixar de ser, no centro da mídia mundial.
Mas às vezes parece que o Brasil não é mundo. Temos reações “sui generis”.
Era comum termos no 1º de maio uma temática bem organizada, com passeatas e manifestações em todo o Brasil. A temática, muitas vezes polêmica, em outras tantas equivocada, nem sempre era diretamente ligada às questões trabalhistas, muitas vezes galvanizando questões políticas ligadas a bandeiras da esquerda brasileira: contra privatizações, contra o FMI, agendas que não necessariamente tinham a ver diretamente com o dia-a-dia da grande maioria dos trabalhadores. Agora há um assunto ligado à realidade da grande maioria dos trabalhadores: a estabilidade e manutenção do emprego, através de acordos específicos, ou até mesmo, gerais. E impera o silêncio.
Minha expectativa era que esse 1º de maio brasileiro fosse, no mínimo, barulhento, uma vez que o emprego nunca esteve tão em xeque: seja pela desindustrialização, que vem causando perdas ao modelo tradicional de organização do trabalho, seja pela discussão de revisão da legislação trabalhista, seja pela crise que já traz ares de depressão e que tem atacado os empregos em forma de pirâmide: dos empregos de mais qualidade aos de menor qualidade, nessa ordem, atingindo em cheio a classe média.
Era de se esperar que em um país democrático como o Brasil, ocorressem manifestações a exemplo do Chile e Argentina e na grande maioria da Europa.
O que se viu, no entanto, foi digno da época da ditadura: com exceção do silêncio e da pasmaceira, o que foi promovido e se viu foram shows de artistas desvinculados de qualquer temática, ações assistencialistas, um “panis et circensis” revisitado, mas nada sobre a onda de desemprego provocada pela crise econômica, sobre o debate de mudança nas leis trabalhistas, sobre a securitização do emprego. Nenhuma dessas importantes questões apareceu na pauta do Dia do Trabalho brasileiro, ou foi abordada massivamente pela mídia, que tanto tem falado do assunto crise, mas sem foco no dia-a-dia das pessoas.
É como se a crise mundial do emprego não existisse no Brasil, a despeito da queda de todos os indicadores, é como se uma recessão com características de pré-depressão não estivesse a testar os mecanismos de proteção social ao seu limite. No mundo todo, aconteceram protestos e foram formuladas pautas de reivindicação pelas principais centrais sindicais.
É, no mínimo, de se estranhar a falta de mobilização. Apagou-se a sociedade civil, a classe média, ou pelo o menos a parte dela ligada ao trabalho e sindicalismo, ou ela foi cooptada pelo oficialismo, anulada na onda de paralisia em que se encontra o País, ou na combinação dos dois fatores? Por quem será o silêncio: pelos trabalhadores que estão em risco, ou pela opinião e expressão de um País que sucumbe na frivolidade?
Gustavo Grisa
Reprodução autorizada mediante consulta ao autor.
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