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Brasil, Despreparado para a Crise?


“Da onda mundial de crescimento e investimentos nos países BRIC desde o final da década de 90, tivemos o aproveitamento mais tímido. É inegável que se tivéssemos implementado uma reforma tributária, tivéssemos um regime cambial mais estável para o setor produtivo exportador e tivéssemos evoluído mais na gestão do setor público - restringido despesas de custeio e aumentado os investimentos - teríamos mais investimentos privados, mais empregos de qualidade e um crescimento de maior magnitude e continuidade, antecipando-se aos movimentos mundiais e não apenas sendo seguidores e nos posicionando tardiamente.


O que temos que fazer é acelerar um posicionamento agressivo para atração de investimentos e manter a inflação sob controle. Junto com a inflação baixa será mantida a confiança. E cruzar os dedos para que seja mantido um certo grau de estabilidade com crescimento na economia internacional.”


Esse é o encerramento de um artigo que escrevi no último dia 13 de julho. Essa era, até recentemente, a receita brasileira para o desenvolvimento, torcer para que desse certo o posicionamento como BRIC tardio. Diante do cenário que então persistia. Não tínhamos uma recessão mundial de respeito desde o início dos anos 2000, ou uma grande turbulência desde a crise russa e asiática, há cerca de dez anos atrás.

Nesse meio tempo a direção do mundo, abruptamente, mudou.

O cenário há muito identificado, e visto como possível e até provável por muitos cenaristas, mas pouco desejado no meio financeiro e produtivo, se concretizou. O bode da crise econômica mundial está no meio da sala, e é impossível ignorá-lo. A dúvida é quanto à sua permanência e ao seu estrago.

A aposta brasileira também deverá mudar. E rapidamente. Com a escassez de capital para investimento no mundo, o mesmo modelo não funcionará.

Onde mexer?

Em primeiro lugar, todo investimento na manutenção de um clima de confiança é pouco. Por esse motivo, há espaço para declarações cautelosas, ou com certo desdém sobre a crise. O objetivo é, sem bravatas, manter as expectativas sob controle para que se ganhe tempo e se mude de estratégia, tanto macroeconômica, quanto de posicionamento dos grandes agentes econômicos. O setor privado tende a agir com cautela nesses momentos, e aguarda sinalizações oficiais e externas.

Na diminuição da expectativa de crescimento: nosso último trem para Paris, que já saiu tarde, reduzirá sua marcha. Novamente, como no final da década de 70, o Brasil projeta crescimento em um cenário mundial de desaceleração. Esse ceticismo perpassará todos os agentes econômicos e não passará despercebido, e resultará em um crescimento econômico para 2008 aquém daquele até então esperado para o País. Isso é algo normal em circunstâncias como essa. Como manter um ritmo considerável por mais um ou dois anos?Em primeiro lugar, cruzando os dedos para que a crise seja breve.

O grande problema é a explosão da despesa pública – não há como persistir a gastança sem um crescimento econômico mínimo que possa sustentar o aumento de arrecadação. O triste é que o que inchou essa despesa nos últimos anos foi o custeio, notadamente gastos com pessoal, com um efeito multiplicador mais limitado e concentrador, e não o investimento. Logo, um aperto de cinto é recomendável e considerável no horizonte, seja agora pela urgência, seja pela necessidade latente, que era a cada dia adiada.

O que antes era um entrave para maior crescimento e uma bomba-relógio para o futuro- a combinação de explosão do custeio com aumento da carga tributária- tornou-se um problema imediato. Haverá espaço ou disposição política para esse ajuste?


Gustavo Grisa

Reprodução autorizada mediante consulta ao autor.

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