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Brasil em Desenvolvimento
RS: A Triste Vitória do Fundamentalismo
Em entrevista a uma rádio da capital há algumas semanas inferi que daqui há alguns anos lembraríamos desse episódio do pacote de estabilização como o marco do momento em que começamos a sair da crise, ou a chance que tivemos e não aproveitamos e nos afundamos em um modelo quase argentino, de insolvência, instabilidade e mútuas acusações.
Apesar de tudo, eu acreditava que o Rio Grande havia evoluído. E apostei que, mesmo diante de todas as dificuldades, iríamos buscar uma solução enquanto ainda existem opções. Mais uma vez, subestimei o obscurantismo gaúcho, que parece aflorar nos momentos decisivos, e apontar para uma decisão equivocada, mesmo travestida de razões momentâneas. A dificuldade em agir estratégica e racionalmente. De distinguir o que é conjuntural, transitório, do que é permanente. Enfim, o DNA fundamental do nosso atraso.
Por trás do resultado, despontam três grupos que lideraram a vitória fundamentalista:os radicais de plantão, da mesma patrulha mal-humorada que expulsou a Ford do RS, para quem o quanto pior estiver o Estado, mais pobre estiver o nosso povo, melhor estará seu grupo político. Outros que se utilizaram da situação para pequenas vinganças políticas contra o governo Yeda, por diversos motivos, sem dimensionar o interesse maior do Rio Grande ou da população por trás da proposta. Apostaram, também, no quanto pior, melhor, para reforçar o seu fisiologismo de curto prazo ou simplesmente a retórica radical de direita que é muito mais parecida em sua forma e raiva com o petismo ranheta do que com qualquer traço de modernidade.
E, finalmente, lideranças e formadores de opinião sérios que reforçaram as fileiras dos dois grupos acima por estarem cansados de anos de procrastinação da crise com aumentos de impostos constantes sem se mexer em questões estruturais, por confundir, erroneamente, a situação do Rio Grande com questões federais, ou por apostar que da crise virá a solução. Por serem, por princípio, contrários ao aumento de impostos – o que eu também sou - não enxergaram a questão com a amplitude ou excepcionalidade necessária. Ao negar o uso de um remédio que traz contra-indicações, acaba por se matar o paciente, como os adeptos de religiões que preferem a morte de entes queridos ao uso de determinados remédios.
Eu fui um dos que divergiu contra o senso comum, apoiando até mesmo um aprofundamento das medidas, que iam muito além do aumento de impostos, mexiam na estrutura do Estado. Sou, por princípio e prática, pró-business. Tenho absoluta convicção de que os corporativismos, os privilégios e a ineficiência da máquina estatal têm um papel importante em nosso atraso, sim. Acredito que o Brasil está garroteado pelo excesso de tributação e péssima produtividade dos recursos.Mas no caso do RS, preferia, sinceramente, operar as mudanças estruturais a partir de um remédio amargo, ter opção e não penalizar as escolas, o funcionalismo e a construção do nosso futuro.
Estudei razoavelmente a economia do Rio Grande e casos de mudanças de padrão de desenvolvimento no mundo para afirmar isso. Engana-se quem pensa que a economia pode superar os problemas das finanças públicas. Pelo contrário, o déficit crônico tem tudo para enterrar a nossa economia. O que tivemos esse ano foi um “verão indiano” da economia, com uma recuperação meramente conjuntural. Nossa matriz produtiva continua atrasada e insuficiente. Não será jogando o Estado rumo à insolvência que se conseguirão condições competitivas para atrair investimentos dos novos setores de que precisamos. Não será com a administração estadual subjugada que se conseguirá atrair o auxílio de órgãos multilaterais de fomento. Não há como esperar milagres econômicos que virem o jogo sem ter um Estado e sociedade trabalhando juntos por interesses maiores. E números que fechem.
A adesão deste terceiro grupo, de lideranças sérias e esclarecidas, me preocupou. Os argumentos simplistas utilizados, idem. A sociedade gaúcha, que mostrou maturidade para formular uma Agenda Estratégica e um Pacto pelo Rio Grande, hoje mostra que voltou a patinar. E que é muito eficiente para destruir, e pouco capaz para construir conjuntamente.
O governo Yeda Crusius passará, com seus erros e acertos, como todos os governos. Mas o Rio Grande fica. Quem desta vez mirou em Yeda acertou fundo no coração das crianças e jovens do Rio Grande. Pois o futuro do Rio Grande morreu um pouco mais na semana passada. Quem não entende isso não sabe construir cenários, e teima em esperar para ver os resultados para aí, sem poder de reversão e cada vez com menos esperanças, constatar o óbvio.
Não precisávamos da terra arrasada. Os próximos meses serão muito difíceis, os resquícios da inabilidade respingarão sobre as fatias mais frágeis de nossa sociedade: o custeio dos serviços públicos, o funcionalismo mais humilde e os programas estruturantes de que nosso Estado tanto precisa.
Não gostaria de simplesmente, daqui há alguns anos, recontar a história de uma tragédia hoje anunciada. Choramingar como no caso da Ford. Acredito que voltaremos a discutir um novo pacote de medidas, talvez mais duro. E, por isso, talvez mais injusto e cruel, pois, com o tempo, as opções vão diminuindo. Mas não podemos desistir . O que está em jogo é o nosso futuro.
Sinceramente, esperava e ainda espero mais do Rio Grande do Sul. Não acredito que sucumbimos, ou que sucumbiremos. Há de se construir uma ponte entre radicalismos.
Gustavo Grisa
Reprodução autorizada mediante consulta ao autor.
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