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Brasil em Desenvolvimento
São Paulo e o Desenvolvimento (In)Sustentável
Tragédia dos comuns é o fenômeno em que existe um conflito entre o somatório dos interesses individuais e o bem comum. Ocorre principalmente quando há praticamente livre acesso e procura irrestrita por um recurso que é finito. Via de regra, o que acontece é que o recurso acaba por exaurir-se, com benefícios decrescentes a custos cada vez mais altos, diminuindo ou eliminando o ganho coletivo e também individual.
Poucos exercícios de análise são melhores para descrever o que acontece em São Paulo, que é, de longe, a região brasileira a experimentar os ciclos mais avançados do nosso modelo de desenvolvimento, para o bem e para o mal. Mas São Paulo é mais vítima de seus méritos do passado do que de omissões, por ser a primeira região brasileira a verdadeiramente industrializar-se, e por isso a ter problemas mais complexos. Aí que ocorrem os fenômenos de insustentabilidade que são próprios da economia do século passado, baseada fortemente na expansão de fronteiras, ganhos de escala e na fragilidade institucional.
O paradoxo de São Paulo é, hoje, a síntese do dilema brasileiro do desenvolvimento, do convívio entre o progresso e a barbárie. Da definição consagrada de desenvolvimento sustentável, “ prover as necessidades do presente sem comprometer as condições das gerações futuras atender às suas necessidades”, o que acontece é exatamente o oposto.
A excelente massa crítica de profissionais, cientistas e gestores existente em São Paulo, uma classe média atuante e mobilizada e a concentração de conhecimento de nível internacional não tem sido suficiente para conter, contrapor ou planejar o caos do crescimento desordenado e a acelerada exaustão dos recursos, sejam eles o espaço horizontal e vertical, a qualidade do ar e da água e o tempo excedente em deslocamento, transformado em queda de produtividade. São as famosas deseconomias de aglomeração.
É como se fosse uma projeção, no presente, do modelo solidificado no período em que tivemos um crescimento no padrão “chinês” (décadas de 50 a 70) .Um dos motes dos 400 anos da cidade de São Paulo era a “ cidade que mais cresce no mundo”. Para muitos, o fenômeno chinês seria, guardadas as proporções e as circunstâncias,uma transposição do modelo de São Paulo e, em menor escala, da cidade do México das décadas de 40 a 70, agravado por um ambiente político e social totalitário.
Os exemplos são muitos: o acidente e os incidentes a partir das greves no metrô, o problema de segurança com os motins e ataques do PCC, o acidente de Congonhas, e a própria idiossincrasia da existência do aeroporto cravado em um “paliteiro” de prédios, uma disposição que não resiste ao senso comum dos passageiros . Como reflexo da magnitude da economia, a magnitude das crises.
Em um Brasil cada vez mais metropolitano, São Paulo é a síntese do convívio do moderno e o arcaico, o conflito máximo do desafio brasileiro, que não é mais simplesmente o crescimento econômico.
Então, para atingir a sustentabilidade, deveríamos abrir mão de empreendimentos econômicos? Este é um raciocínio primário e sectário. Ao reproduzir-se a pobreza pelo esvaziamento de atividade econômica, é agravado o impacto sobre os recursos naturais, humanos e de espaço. Ruim com o crescimento econômico, muito pior sem ele. A questão é gerir e planejar corretamente a apropriação dos benefícios do desenvolvimento econômico no espaço das cidades e dos territórios.
Dentro de uma estrutura institucional nacional preparada ainda para um modelo de desenvolvimento antiquado, os paulistas estão pagando o preço de sua eficiência em puxar o “motor” da economia que mais cresceu no século XX.
Se não criarmos condições para o rápido crescimento das economias de escopo e ordenamento do setor público nas atividades-fim, capazes de multiplicar a riqueza com o uso dos mesmos recursos através de uma aplicação mais adequada (transformação dos recursos de impostos em investimentos em educação e conhecimento e a busca de uma nova matriz produtiva), as tragédias metropolitanas brasileiras são apenas crônicas anunciadas, a esperar por novas e tristes notícias.
Gustavo Grisa
Reprodução autorizada mediante consulta ao autor.
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