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Tendências Internacionais
Espanha: Como se Constrói uma Potência ?
Como se faz uma potência em 30 anos? Dentro da cultura ocidental, o caso mais amplo de
transformação sócio-econômica é o da Espanha. Talvez, o que traga melhores lições
para a realidade brasileira. Por ter sido feita em sua maior grande parte dentro do regime democrático, por ter florescido a partir de um amplo consenso nacional em torno de questões-chave para o desenvolvimento do País e por ter sobrepassado sérios problemas culturais de unidade nacional.
A mudança de perfil, o empoderamento espanhol aconteceu nos campos cultural, esportivo, de projeção internacional, mas principalmente de robustez econômica e busca da integração social.
O sociólogo Mario Gaviria (La septima potencia: España en el mundo) comparou 3 períodos da história recente espanhola e identificou que apenas na última fase, entre 1986-1996, houve avanços significativos em todos os quatro eixos: econômico, social, político e de projeção internacional,
Em meados dos anos 50, a Espanha tinha um padrão de vida equivalente ao dos anos 30. Não é a toa que na primeira metade do século XX houve migração em massa de espanhóis para todo o mundo, inclusive o Brasil. Sem a acumulação de capital da década de 60, não seriam viáveis os avanços políticos da década de 70,ou os avanços sociais e internacionais das décadas de 80/90.
O período “desenvolvimentista”na década de 60 acompanha o auge do “boom” europeu do pós-guerra e a disponibilidade de recursos financeiros- é a versão espanhola do “milagre brasileiro”, com grande acúmulo de capital, e ancoragem em alguns grandes grupos estatais. A “transição” durou do final do franquismo (1976), passando pelo Pacto de Moncloa e a consolidação do governo liderado por Felipe González: foi um grande planejamento estratégico para o País.
O desenvolvimento econômico é resultante, mas ao mesmo tempo, catalisador; sem a construção de prosperidade econômica é difícil fomentar aos outros eixos. Sem se fomentar aos outros eixos, e em um ambiente de plena democracia, é impossível atingir o pleno desenvolvimento.
Nesse período, a Espanha forjou uma certa resistência às recessões que se manifestaram na Europa durante os anos 80/90 e atingiu a condição de país rentável, seguro e atrativo para investidores internacionais. É óbvio que os subsídios e a consolidação da União Européia foram decisivos na disponibilidade de recursos e investimentos, mas os líderes espanhóis souberam posicionar-se diante das novas oportunidades.
Mais importante, do ponto de vista cultural houve uma ruptura com o caudilhismo, mal latino que vem na Espanha desde El Cid: a idéia de que o povo vai bem porque o líder é bom. Na realidade, o que funciona é a inversão do processo: como a sociedade atingiu maturidade e cresceu homogeneamente, escolhe líderes bem preparados para os desafios, com perfil cada vez mais próximo de gestores com sensibilidade política. A Espanha funciona bem, e existe uma certa divisão dos méritos na sociedade. As políticas sociais funcionam satisfatoriamente porque atingem a um número relativamente reduzido de “excluídos”, uma vez que as regiões e a população ganham homogeneidade e o padrão salarial também melhora.
É óbvio que nem tudo são flores: o índice de desemprego é alto, mesmo para padrões europeus, os imigrantes passam a ser um assunto polêmico e incômodo, incitando radicalismos, e permanecem algumas divisões que ficaram evidentes no momento de discussões sobre a autonomia provincial. Mas a maior lição da Espanha é a latinidade que deu certo e, aos poucos, soube abrir mão dos radicalismos em nome de uma construção contínua.
Gustavo Grisa
Reprodução autorizada mediante consulta ao autor.
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