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Tendências Internacionais
Uruguai- A ´Sacudida´de Tabaré Vasquez
O Uruguai, com pouco mais de três milhões de habitantes, sempre foi visto como aquele vizinho sossegado da América Latina: com uma situação política e econômica relativamente estável nos últimos anos, ainda que à beira da estagnação. Não era considerado consistentemente como um destino de investimentos econômicos de grande porte, a não ser empreendimentos turísticos, do mercado financeiro e no setor agropecuário.
Por ser um país pequeno e com nível relativamente baixo de corrupção e desorganização institucional, consegue manter-se com uma despesa pública controlável e rastreável, ainda que segmentos da população, extremamente politizada e polarizada, discuta seriamente questões como a manutenção de benefícios sociais e previdenciários. Nos últimos 15 anos, o Uruguai sempre foi o vizinho mais tranqüilo do Mercosul, com os governos alternando-se entre os partidos Blanco e Colorado. Alguns segmentos da população temiam a ascensão da Frente Ampla, vencedora das eleições de 2004, que misturava segmentos moderados da esquerda com remanescentes de grupos mais radicais como os ‘tupamaros’. Na época falou-se em invasões de terra, nacionalização, de ativos, etc.
Mas são quase dois anos e nada disso aconteceu. O que aconteceu é que Tabaré Vasquez se destaca como um dos presidentes mais pragmáticos da América Latina, um destaque de atuação ao lado do colombiano Álvaro Uribe, por ‘pegar à unha` o touro que trancava o desenvolvimento de seus países: para Uribe, a desordem e a criminalidade; para Vasquez, o conservadorismo e imobilismo uruguaio, centrado em uma matriz meramente agropecuária, ainda que com qualidades, com um setor de serviços dependente dos vizinhos Brasil e Argentina. Vasquez trouxe investimentos como as ´papeleras`- mesmo que de forma atabalhoada, formando tensão com a Argentina. Mais importante, sopra um certo ar de renovação em um País onde os jovens tinham um futuro bastante limitado e inova ao adotar a iniciativa de um computador por estudante da rede pública no País. Em vez de dinheiro, um instrumento de transformação pessoal e de sua família. Entende-se que junto a essa iniciativa, o setor de tecnologia da informação será fortemente incentivado.
A iniciativa assemelha-se aos programas “nenhuma criança sem escola”, porém já vinculada aos tempos de hoje- o “nenhuma criança sem computador” pode transformar definitivamente o país. Ao mesmo tempo, o Uruguai articula com os Estados Unidos um polêmico acordo de livre comércio.
As desvantagens de país pequeno podem tornar-se vantagens, ao permitir, na seleção de parceiros e financiamento internacional, alocar recursos para uma rápida transformação. O Uruguai está mudando pela habilidade de saber captar símbolos e enxergar oportunidades. Se conseguir vencer os conflitos dentro do amplo espectro da Frente Ampla e aumentar a abertura internacional e acelerar a melhoria das instituições para investidores, o Uruguai poderá rapidamente beneficiar-se das trapalhadas dos governos de outros países da região e deixar de ser uma Suíça decadente, ainda que não miserável, para ser um país com futuro. O que já é um belo começo- oferecer esperança real a uma população com nível razoável de riqueza, porém até então com poucas perspectivas, condenada economicamente à mesmice e a queda lenta e gradual de seu padrão de vida.
Gustavo Grisa
Reprodução autorizada mediante consulta ao autor.
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