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Aumento de 100%, Ato de Covardia


Desculpem o tom e o atropelo, mas poucas características são mais abjetas do que a covardia. Sem votação, de forma sórdida e traiçoeira, acertou-se ontem o auto benefício, e os aumentos de 100%dos deputados e senadores serão logo repassados para os parlamentares estaduais. Através da votação via acordos de liderança, pensava-se que prevaleceria o “ninguém sabe, ninguém viu”. Contava-se que a opinião pública brasileira, estafada de tanto escândalo, tanta matreirice, cairia mais uma vez inerte e vencida.

Gostaria de saber quantos desses parlamentares, que não são todos, mas constituem a maioria, defenderiam em arena pública o seu posicionamento? Para muitos é mais conveniente a silenciosa omissão. Soube-se que o chamado baixo clero comemorou. O termo “baixo” para muitos em quem infelizmente votamos -sim,todos nós somos responsáveis- não poderia ser mais adequado. "Baixo" no que denota baixo nível intelectual, ético e de honra, ao entender-se aí a preparação para o desassombro, o confronto verdadeiro de idéias. Comportam-se de modo primitivo, próximo de um modo fisiológico de vida e uma presença ínfima de auto-censura em nome de onde acabam os seus direitos e começam os do próximo.E o pior, o método, crivado de medo e dissimulação.Os primeiros chamados a reagir são os parlamentares mais lúcidos, mas não estariam também acuados, pressionados?

Quantos hospitais poderiam ser mantidos, quantas escolas tecnológicas construídas ou bolsas de estudo direcionadas com esse recurso extra? A prioridade sinalizada pela classe política é clara. É o encastelamento em seus privilégios e a perpetuação de um Brasil burocrático, cartorial e atrasado.

Foi-se, de vez e em bloco, qualquer escrúpulo. No Brasil de hoje, com o crescimento da economia limitado e a inflação baixa, aumento de 100% é um sonho de verão. Seja para o funcionalismo, muito menos ainda para trabalhadores da iniciativa privada, cada vez mais estrangulados e injustiçados pela opinião publicada.

Não existe limite para quem tem o poder da auto-regulação, mas nenhuma temperança ou preparo para exercê-lo. Ou seja, no entendimento da média dos parlamentares brasileiros o nível de discernimento do povo brasileiro deve ser próximo de zero, um bando de bobos frívolos e submissos.

Se já temos impostos de Suécia e serviços públicos de Bangladesh, a face dos 100% é apenas o lado mais sórdido e caricato das inúmeras distorções que se perpetuam no País, de uma máquina modorrenta que arrecada muito, privatiza privilégios e retorna muito pouco ao cidadão.

Onde estão as lideranças civis do Brasil, a UNE, a OAB e tantas outras, contra esse acinte? Estariam aparelhadas, apaziguadas ou intimidadas?

Em um país em que derrotas no futebol são motivos de raiva, brigas e motins, o aparvalhamento geral é o que mais assusta. Estamos numa democracia, sim, senhores, e pressão e mobilização são manifestações legítimas. Talvez ainda não estejamos acostumados ou confortáveis com isso. A sociedade brasileira tem que fazer valer a sua voz, e acredito que fará.A tendência é que os covardes, pressionados, recuem momentaneamente, em um gesto magnânimo. Mas estejamos atentos....se recuarem, voltarão, de soslaio e mais sofisticados, como é de estilo. Aliás, péssimo e baixo estilo. No mesmo estilo da infidelidade partidária, dos suplentes obscuros de senador, da imunidade parlamentar para crimes comuns.

O Brasil verdadeiro não é jeca, covarde e atrasado assim. Continuo acreditando nisso, sofro da boa doença chamada esperança. A afirmação da liberdade de expressão e a renovação e qualificação de lideranças nos recuperará.


Gustavo Grisa

Reprodução autorizada mediante consulta ao autor.

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