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A ALCA e o Tigre de Adenauer


"A única maneira de se estar de acordo com um tigre é deixar que ele nos coma".


A célebre frase de Konrad Adenauer, ex-chanceler da Alemanha (1948-1961), é onipresente quando planejamos e discutimos o espaço e opções do Brasil dentro da ALCA.

O dilema que vivemos é bastante próximo do tigre de Adenauer, mas não tão horrendo como se possa inicialmente imaginar.

O que é mais preocupante é não termos uma dimensão exata da ferocidade do tigre, não sabermos como estão se comportando as demais presas (nesse caso, outros países), e aparentemente nos faltar uma estratégia mais elaborada de como administrar esse “devoramento”.

A primeira reação diante da ameaça do tigre é de pavor. De imaginar que seremos devorados sem piedade, e da maneira que o tigre preferir. Acredito que essa fase já passou. Mesmo os mais empedernidos filósofos de botequim sabem que a coisa não é bem assim, até por que nosso maior parceiro comercial e investidor são exatamente os Estados Unidos.

A segunda reação, de negação, protelamento, está sendo esvaziada por duas razões muito simples: a primeira, pela própria ação de governo norte-americana, e a segunda, pelas necessárias negociações que o Brasil tem tido com o FMI e Banco Mundial, objeto do crivo político da Casa Branca.

A escolha de Robert Zoellick (o US Trade Representative) para representar o governo norte-americano na posse do Presidente Lula pode ter sido uma sinalização bastante clara da área temática em que o Brasil é prioritário na agenda norte-americana. O duro recado das primeiras reuniões da ALCA também deixa claro que a não-adesão seria uma opção “delicada” para o Brasil.

Se trouxermos nossas condições de contorno e manobra à mesa, fica claro que a tática do ouvido de mercador já teve o prazo de validade vencido há tempo: com acordos sucessivos sendo negociados no FMI, programas necessitando da chancela do Banco Mundial, e o Mercosul moribundo, qual seria nosso poder de barganha?

Pensando adiante, uma eventual posição alternativa ou de maior resistência do Governo brasileiro, não teria o risco de ser interpretada como uma reação “nacional-populista”? Por razões óbvias, em qualquer cenário de sensatez esse posicionamento seria naturalmente descartado.

A lenta e gradual distensão em direção ao tigre que estamos empreendendo parece ser a mais sensata das atitudes, se estivermos fazendo o tema de casa corretamente : municiando-nos de informações e identificando as oportunidades de internacionalização de nossas empresas, contingenciando os cenários e atuando de forma coordenada e cooperativa. O “timing” tem que obedecer aos nossos melhores interesses, mas dentro das condições de contorno supracitadas. E essas condições são uma realidade inexorável.

Voltando à analogia, também sabemos que é preciso que toda a cadeia alimentar esteja saudável. Uma presa à míngua é tudo o que um tigre não quer. Adenauer reconstruiu a Alemanha no pós-guerra com o tigre ao seu lado. É hora de começarmos a encarar o tigre com mais realismo e a planejar estratégias de convivência.

Incluindo a missão ingrata de convencer o tigre a não começar pelo filé.


Gustavo Grisa

Reprodução autorizada mediante consulta ao autor.

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