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 Agenda Estratégica para o RS

I - Crônica do Tempo Perdido


A pobreza, seja econômica, cultural, ou política, tem as mesmas raízes: a incapacidade de adaptar-se às mudanças do mundo, e o apego a práticas, valores e crenças de uma estrutura político-econômica formatada para outros tempos e interesses. A condição sócio-econômica do Rio Grande do Sul é significativamente inferior ao seu potencial considerando nossas condições sistêmicas e de desenvolvimento humano.

Os fatores clássicos que separavam o desenvolvimento do subdesenvolvimento, como condições naturais, étnicas, climáticas e populacionais já foram desmentidos por ciclos virtuosos que transformaram países como a Coréia do Sul, Cingapura, Austrália, Portugal, Espanha e a reconstrução européia e japonesa, em diversas oportunidades.

A exclusão social, mecanismo perverso que realimenta os ciclos de retrocesso, tem raízes na falta de percepção da sociedade organizada do que deve ser um projeto contínuo de convivência e construção.

O primeiro passo é uma análise cuidadosa do que é a sociedade em que se vive em nosso Estado, e uma visão sem preconceitos e ranços do que aconteceu, e de que como chegamos até aqui. Antes de procurar culpados e a desagregação, identificar acertos e caminhos que não foram completados; Antes de entrar em elucubrações e teses louváveis mas nunca são levadas à prática, identificar programas básicos em que uma participação colaborativa da sociedade pode construir, sem grandes recursos ou custos, movimentos virtuosos de transformação.

A pobreza e o atraso envergonham, massacram, acabam com a esperança e o bem-estar de famílias inteiras, ainda mais por saber o quanto elas são fruto de falta de gestão, estratégia e ação. O objetivo dessa análise e programas é suscitar discussões que possam resultar em uma agenda que coloque o Rio Grande do Sul efetivamente no século XXI, independentemente de grupos de poder e interesses menores.

A manifestação de pobreza mais acintosa é a incapacidade do Rio Grande do Sul de regenerar-se, de avançar, de incorporar as mudanças do mundo, quando muitas das questões que ainda vemos em discussão são aquelas anteriores à primeira metade deste século, como a histórica e problemática dependência das commodities agrícolas, as desigualdades regionais e o pouco pragmatismo das ações de Governo, com uma relação historicamente problemática e titubeante com o Governo Federal, mesmo tendo 8 presidentes da República nascidos no Estado nos últimos 60 anos.

Os bolsões de atraso cultural e baixa geração de renda em diferentes regiões do Estado, jamais foram assumidos de frente pela sociedade gaúcha. Em resumo, o nosso Estado, a despeito de belas façanhas de embates políticos, da rica retórica que produziu líderes e tribunos de expressão nacional e internacional, é vítima das mesmas idiossincrasias que corroem a América Latina.

O núcleo central para o rompimento dessa barreira de inércia é uma conjugação de gestão,cultura
e coragem, e não apenas da simples combinação de fatores externos. A leitura de nossos indicadores econômicos e sociais básicos pode levar a crer que o Rio Grande estaria mais próximo do que outros Estados brasileiros de resolver essa questão.




Desde 1930, o RS tem sistematicamente perdido espaço em termos de participação na economia brasileira, fenômeno que tem no Rio de Janeiro o seu caso mais radical. Desde 1980, temos conseguido nos manter em um patamar próximo a 8%, enquanto Estados
como Paraná, Goiás, Santa Catarina e até mesmo Minas Gerais têm ganho espaço.
Fontes: IBGE e Un Siècle d´Économie (formulação do autor)

O que difere os ganhadores dos perdedores na arena mundial é exatamente a percepção da necessidade de rompimento da inércia econômica, e ação qualificada para obtenção dos resultados. É óbvio que nesse universo todos querem investimentos internacionais, todos querem exportar e todos querem prosperar. No entanto, quem fica .sentado nas tamancas. marca passo enquanto o mundo avança. Em 1980, o RS tinha um PIB per capita superior ao da Coréia do Sul e Chile, semelhante à Rússia (então, União Soviética).

No final da década de 70 e início da década de 80 sedimentamos a trajetória de atraso que depois tivemos dificuldades de quebrar. A política econômica de incentivo a financiamentos a juros baixos e posterior abandono com a maxidesvalorização (a infame Resolução 63) seguindo o default de 1982 levou muitas empresas de administração familiar e presença regional à bancarrota. Aos poucos, a condição do crédito agrícola também sofreu os mesmos problemas. A questão fundiária veio à tona, primeiro com o problema das desapropriações mal feitas, depois com o aparelhamento político e o problema de produtividade dos minifúndios. A essa fórmula, que havia empurrado nosso desenvolvimento nas três décadas anteriores, não soubemos trazer uma rápida substituição. Dessa forma, por pelo menos 10 anos vivemos completamente atônitos.

Enquanto o RS dormia, a nova economia começava a tomar forma no mundo. Software, hardware, automação industrial, setor aeroespacial, uma nova divisão mundial na indústria automobilística, os primeiros passos da biotecnologia. Nesse novo mundo, que trazia junto uma fase sem precedentes nos últimos 20 anos de transformação no próprio Brasil, com estabilidade macroeconômica, privatizações e investimentos internacionais, o RS foi apresentado no final da década de 90 em iniciativas que culminaram com a atração da General Motors e da Dell Computers. Se houveram esses dois triunfos, não foram poucas as frustrações, trazidas posteriormente pela atuação excêntrica do governo que sucedeu o de Antônio Britto. A migração da Ford para a Bahia é um fato tristemente lembrado, e que não deve ser esquecido como lição. A laminadora da Gerdau que não houve, a Intel que foi para a Costa Rica, e o centro de semi-condutores da Motorola em Porto Alegre que parece eternamente condenado a não sair da prancheta.

Aquele momento era crucial. Se o processo virtuoso de transformação e atração de investimentos continuasse até meados de 2001, quando houve a grande desaceleração da economia mundial, o Rio Grande hoje já seria muito diferente.

Primeiro Paralelo: Argentina

A Argentina é o exemplo que melhor serve como laboratório para os gaúchos se espelharem em como se destrói uma vocação natural para o desenvolvimento. E um exemplo de quem mais sofre com a falta de desenvolvimento, os jovens. Hoje, cerca de 60% dos jovens argentinos entre 15 e 24 anos vivem abaixo da linha de pobreza. Mais de 1 milhão de jovens não estudam nem trabalham. Entre 1978 e 1988, 70% dos argentinos pertenciam à classe média, e foram caindo de padrão, ano após ano. A situação do Rio Grande como um todo não é tão trágica, até por que nunca chegamos a atingir um patamar de bem-estar tão alto para cair tanto, mas em algumas regiões pode ser até pior.

Para o sociólogo Juan Sebrelli, atrás da deterioração sócio-econômica da Argentina está a deterioração da atividade política e o apego exagerado a tradições na economia. Para Sebrelli, a sociedade argentina fugiu da política, deixando-a entregue a chefetes regionais, demagogos desqualificados e corruptos. A .massa crítica. intelectual e profissional não se manifestou na vida pública. Como resultado, a recorrência aos vícios do populismo e ilusionismo. O setor público argentino é hoje sensivelmente mais atrasado do que o brasileiro. A economia ainda depende muito do setor agropecuário. De bons IDHs, o inferno econômico está cheio. O bom nível cultural e educacional da Argentina não os salvou da perda de rumo. Faltou um mínimo de estratégia e qualificação de lideranças políticas.

Segundo Paralelo: França

Há algum tempo atrás escrevi um artigo, chamado   "O RS é a França do Brasil".

É consenso entre parcela considerável da intelectualidade francesa que o clássico ícone ocidental hoje vive de glórias do passado, como as famílias arruinadas que tentam, mas não conseguem ocultar a perda da prosperidade. O jornalista Fernando Eichenberg escreveu uma ótima matéria na revista Primeira Leitura no ano passado - "França dos Extremos - A arrogância da decadência" - A França era o 3° maior PIB per capita da União Européia há 10 anos atrás. Hoje, é o 11°.

Na raiz do agravamento das disparidades sociais e das poucas oportunidades econômicas está o conservadorismo, o baixo nível de renovação de lideranças e uma fuga incessante em encarar de frente as reformas do Estado e da previdência que outros países europeus já realizaram há anos. O corporativismo estrangula as tentativas de reforma. Produção e trabalho há tempos encontram-se fora da pauta de discussão. A França tem a maior proporção de funcionários públicos dentre os países da OCDE (25% da população ativa) e uma das maiores cargas tributárias dentre os países industrializados. Em 2008, a dívida pública francesa poderá atingir 67% do PIB.

Quem se perde do rumo do desenvolvimento traz três traços básicos em comum: o conservadorismo, descolamento da realidade e um estado de malaïse.

O Rio Grande sofre das três síndromes.

Os três traços básicos do atraso do RS

a) Conservadorismo - é o apego exagerado ao passado, mais do que às tradições. É o culto do que sempre foi feito, sem questionar se é a melhor forma de ser feito, ou até quando é válido ser feito daquela forma. Um traço característico do gaúcho que manifesta-se na prática através do isolamento cultural e econômico. É o culto à agropecuária extensiva, o culto à terra e a propriedade como fonte de riqueza, a insistência tão-somente na subsistência.

b) Descolamento da realidade - é o baixo entendimento e acompanhamento da dinâmica da mundo. É um centrismo exagerado somente nas nossas coisas e nas nossas questões comezinhas do dia-a-dia. Ao não entender como o padrão de desenvolvimento do mundo mudava, insistimos em velhas fórmulas que apenas pioraram a situação. Quem não entende bem a realidade não consegue escolher bem as lideranças para lidar com as novas realidades. Como resultado, o deserto de idéias e novas lideranças que vivemos hoje. O que se prega e se debate pelo Rio Grande afora ainda é prato requentado de 20, 30 anos atrás.

c) Malaïse - é o sentimento de apatia da população, que passa a esconder-se em estratégias de sobrevivência econômica de curto prazo. É a cultura do .oh dia, oh vida, oh azar., junto com teses de perseguição e deterioração das escolhas políticas, com valorização da demagogia e clientelismo, que se alimenta da reprodução da pobreza. A pobreza envergonha, massacra, tira a dignidade do ser humano. E em um povo com a formação cultural do Rio Grande esse processo é silenciosamente e particularmente cruel.

A dinâmica econômica insuficiente e o indivíduo

É no mínimo míope uma análise que separa a dinâmica econômica do bem-estar do indivíduo, ou coloca as duas questões separadamente. Como resultado da dinâmica econômica inadequada, estão as desigualdades regionais, o sentimento de desesperança, a migração (encontram-se gaúchos pelo Brasil e mundo afora, em busca de melhores oportuindades), altas taxas de alcoolismo, drogadição e psicoses que acompanham a falta de perspectiva presente e futura, e um sentimento de .tempo perdido..

Uma população com este grau de vulnerabilidade está pronta para ser vítima de radicalizações, sejam políticas ou religiosas. O fanatismo e desqualificação da política vêm dessa necessidade de esperança, uma esperança necessária porém nem sempre calcada em fatores racionais.


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